http://www.cic.unb.br/~rezende/sd.htm > Software livre: nos Governos

Incidente em Alcântara: um alerta

Prof. Pedro Antonio Dourado de Rezende
Departamento de Ciência da Computação
Universidade de Brasilia
22 de Agosto de 2003


A tragédia do acidente com o Veículo Lançador de Satélites do Brasil em 22/08 vai além da sua dimensão humana. Passado o choque e a dor, perguntamos, e seguiremos perguntando, o que poderia ter causado o desastre. Numa primeira análise, pode-se dizer que foi mero acidente, erro de operação ou sabotagem. A destruição foi tamanha que talvez seja extremamente difícil, aos peritos que investigarão as causas, chegar a uma conclusão definitiva que permita aos cientistas e à Aeronáutica aprenderem com ela.

A situação mais grave seria aquela em que, depois de longo trabalho, nada se conclua de convincente, com maior probabilidade se a causa tiver sido sabotagem bem planejada. Para piorar, já na primeira entrevista coletiva as autoridades responsáveis teriam prontamente descartado, segundo notícia no canal Band News de 23/08, a possibiliade de sabotagem. O flagrante açodamento desse descate torna tal hipótese, para um arguto observador, inicialmente a mais provável, [posto que o investigador neste caso é o próprio investigado]. Afinal, este acidente ocorre depois de duas misteriosas e sucessivas falhas anteriores, sob as condições em que se encontra o mundo hoje.

Quem teria interesse em sabotar o projeto espacial brasileiro? Abertamente, ninguém que se saiba. Porém, de forma indireta, há um natural suspeito ao se reconsiderar a hipótese. Um suspeito que se manifesta no nível de exigências impostas para negociar acordo, com o governo FHC, para o uso da base de Alcântara. E que, na atual gestão, documentou publicamente sua determinação de se valer de qualquer meio ao seu dispor para impedir que outras nações alcancem posições de vanguarda tecnológica ou militar que possam desafiar, a seu olhar hoje paranóico, sua hegemonia militar, econômica e política ("doutrina bush": http://www.whitehouse.gov/nsc/nss.html). E que vem chantegeando e ameaçando países do terceiro mundo empenhados em desenvolver tecnologia espacial através de programas militares, como o Irã e a Coréia do Norte: o governo dos EUA (**).

Dele, o então governo do Brasil aceitou absurdas imposições para o aluguel de espaço e instalações na base aeroespacial brasileira. Entre essas imposições, destaca-se a que impede a renda proveniente deste aluguel ser gasta no programa espacial brasileiro, e a que impede o acesso físico de qualquer brasileiro às dependências alocadas aos norteamericanos em Alcântara. Tendo privatizado boa parte do patrimônio do Estado, numa farra orquestrada pelo "consenso de Washington" pela qual, ao final, quedou quintuplicada a dívida pública, viu-se o governo FHC ávido por mais migalhas do próprio pão.

Ocorre que o controle e comando das operações aeroespaciais se dá através da informática. Quase sempre, quando à distância, por ondas eletromagnéticas, que desconhecem fronteiras políticas. Nesse contexto, se os códigos de sinalização eletrônica para comando e controle das operações não foram adequadamente concebidos e implementados, bastaria uma rápida e certeira transmissão, até por radiofrequência de um ponto escondido nalgum canto da base, neste caso indevassável, para que um serviço de inteligência estrangeiro pudesse crackear a comunicação brasileira visando uma sabotagem desta magnitude, sem deixar pistas.

Num contexto potencialmente hostil, onde o comando e controle das operações aeroespaciais brasileiras é potencial alvo de sabotagem, como se deve conceber e implementar seus códigos? Com criptografia robusta e autônoma, sobre uma base computacional (centros de controle e canais de comunicação) projetada, instalada, operada e mantida com vistas a assegurar integridade e inviolabilidade à sua função. Deve-se, portanto, começar a investigação pelo início. Pelo projeto do sistema de controle e comando aeroespacial brasileiro, onde se pode plantar a mais danosa semente para esse tipo de desastre.

Pois é no projeto da plataforma computacional do sistema de comando e controle que as proteções contra sabotagem poderiam já ter sido totalmente inviabilizadas. Mais especificamente, na escolha dos sistemas operacionais para os computadores. Talvez por coincidência, o próprio governo norte-americano se encarrega de fazer lobby -- com grande sucesso junto ao governo FHC -- para que as ações do governo brasileiro não "prejudiquem" empresas norte-americanas que licenciam caixas pretas, sistemas operacionais inauditáveis e repletos de portas de fundo.

Desse lobby, o governo dos EUA evoluiu para uma proposta de salvaguarda no âmbito da Alca. Trata-se de um dispositivo de compensações indenizatórias, a serem julgadas por um tribunal secreto que não prestaria contas a ninguém, contra governos que, ao governar seus governados, "prejudiquem" os lucros das empresas esterangeiras (http://www.alca-ftaa.org/ftaadraft02/por/ngipp_1.asp). E dos efeitos colaterais das caixas pretas licenciadas por uma dessas empresas, a França que o diga. Seus serviços de inteligência teriam alertado o Senado francês sobre a suposto envolvimento de suas portas de fundo na espionagem industrial norte-americana (veja
http://www.counterpane.com/crypto-gram-9909.html# NSAKeyinMicrosoftCryptoAPI, e http://www.heise.de/tp/english/inhalt/te/5263/1.html).

Interceptações estariam ocorrendo com vítimas usuárias dos sistemas windows: a Airbus e a Thompson, por exemplo. A primeira, na sua oferta para uma licitação na Arábia Saudita, em que concorria com a Boeing; a segunda, em suposta negociação de propina para a licitação de radares do SIVAM, com oficiais do governo FHC. Até recentemente, o fabricante do windows negava que seus sistemas tivessem portas de fundo, mas com a sua vulnerabilidade cada vez mais escancarada, mudou de tática.

A partir da  versão XP, a Microsoft passou a admitir a presença de portas de fundo no windows. Justificativa, agora? "para o gerenciamento dos seus direitos digitais" (DRM). O XP, que precisou passar, como qualquer software comercializado com criptografia, por uma homologação junto ao serviço secreto norte-americano antes de obter licença de exportação, tem pelo menos 16 canais ocultos através dos quais a empresa (só ela?) monitora as atividades do usuário (http://www.hevanet.com/peace/microsoft.htm). Os clientes aceitam, subjugados e submissos, estando entre os mais ardorosos e felizes vassalos a tucanada que diz amém ao lobby e à Alca.

Tanto é que, ao assumir o Planalto, Lula encontrou o palácio informatizado por uma rede de computadores rodando windows e adminsitrada por uma empresa terceirizada. Licitação? Para que, se, como dizem os editais, não existe concorrente para o windows? Enquanto o próprio presidente da Microsoft é citado na mídia desmentindo os editais, dizendo ser o GNU/Linux o mais sério concorrente do windows. Faltou a ele dizer que nisso Bush Junior e Fidel Castro coincidem em preferência. É a hipocrisia como arma da nova Inquisição, que começa na guerra "contra a pirataria" e se espalha com golpes de estelionato intelectual (veja o caso SCO versus IBM e Linux, em http://conjur.uol.com.br/textos/19529/).

Ao anunciar sua política pública pela preferência ao software livre, auditável, o governo Lula vem enfrentando na mídia ataques sórdidos que transbordam empáfia e desinformação. Como no jornal Valor Econômico ("A escolha pública pelo software livre", 26/06/03) e na revista IstoÉ Dinheiro ("O todo poderoso", 30/97/03), que, tendo se dado a tais panfletagens, se recusam a abrir espaço a opiniões contrárias explicando as razões de Estado para a nova política. É a banda da imprensa que replica mecanicamente explicações grotescas, do tipo "erro de formatação" para uma apuração eletrônica que deu momentaneamente a Lula 41 mil votos negativos, depois de três horas de totalização do primeiro turno em 2002.

Essa banda especula sobre os verdadeiros motivos, mas não de tais proezas e sim das novas políticas públicas. E se esse motivo for o de fomentar o debate sobre o negócio do software? Cá o temos. Que é software, liberdade? Se o palácio do Planalto foi entregue nas condições em que foi, como teriam os tucanos deixado o centro de controle e comando do programa aeroespacial brasileiro? Se da mesma forma, uma tal sabotagem seria como tirar doce de criança, de um mané que está dando mole.

Será que os defensores desse status quo teriam coragem, caso o conheçam, de defender em público o conteúdo das licenças de uso que querem, com o fanatismo religioso do seu fundamentalismo de mercado, preservar? A pergunta cabe, pois muitos deles se metem a opinar sobre a alterativa -- o software livre -- ignorando seu modelo básico de licenciamento, a GPL (disponível em http://www.fsf.org). Insistem em confundir licença de uso com contrato de serviço, fazendo, num ambiente de censura, uma confusão rarefeita em argumentos técnicos parecer-se com má-fé para ludibriar o público, enquanto tentam arremessar o software livre contra o ordenamento jurídico brasileiro.

Esta confusão, porém, ainda não é a mais sinistra. Das possíveis garantias nas comparações kafkianas que se metem a fazer, a mais absurdamente ofuscada não é a "do produto", mas a de sua auditabilidade. A garantia de auditabilidade, por natureza presente na licença livre e ausente na proprietária, é o motivo maior dessa nova política pública. Um motivo que seus detratores fingem, sofismando, não ter relação nenhuma com a erosão do Direito. Com a ridícula eficácia, por exemplo, das leis contra crimes financeiros. E que auto-proclamados juízes ou peritos se apressarão a dizer não ter nada, tampouco, a ver com a hipótese de sabotagem em Alcântara.

Para desdenhar desse motivo, até dicionários -- ou contratos  maquiavélicos "de gaveta" como o GSLP -- tem sido urdidos como pretexto. E o que vem a ser o GSLP? Trata-se de uma engenhosa proposta para virtualizar o mistério da eucaristia no negócio do software. A GSLP (Government Security Licencing Program) é uma nova modalidade de licença da Microsoft, para governos preocupados com os efeitos colaterais e desconhecidos decorrentes do uso de suas caixas pretas. Depois de assinar e pagar, com o compromisso de manter em sigilo tanto a licença quanto seus efeitos, o licenciado ganha acesso para ver código-fonte num site da empresa licenciadora.

Mas sem direito a compilar o código visto. Para que pagar para ver o código, então? Para crer. O olho do licenciado transmutaria o código-fonte em software homônimo, já instalado em seu computador, por meio doutra licença. Como a hóstia em corpus cristi. E mais: se o governo licenciado vier a desenvolver, algum dia, algum software que a licenciadora veja com desagrado, estaria muito provavelmente violando, junto com a GSLP, algum dos inúmeros "segredos de negócio" expressos no código-fonte visto, e portanto, colocando-se sob ameaça de condenação por "pirataria digital". Voilà!

Com a acidente em Alcântara, fica mais difícil aos panfleteiros do status quo defenderem suas posições.  Dissipou-se, com a explosão, a fumaça branca com que ocultavam questões estratégicas urgentes. O que quer o governo brasileiro com caixas pretas intermediando suas comunicações digitais estratégicas? O que querem os norte-americanos em Alcântara, se já têm o Cabo Canaveral, o laboratório JPL, e um programa espacial consolidado e sem rival? Economia de combustível nos lançamentos? Para quem desdenha e refuta o protocolo de Kioto, esta é uma desculpa esfarrapada. Que peguem conbustivel extra no Iraque! E finalmente, quanta hipocrisia, interesses mesquinhos e inconfessáveis conseguirão insuflar na defesa do status quo digital do Brasil de hoje?

v.2 24/08/03
v.3 25/08/03 Inseridos (**); ref. sites de Bush Junior e Fidel Castro usam GNU/Linux

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(**) - Maurício Tuffani: "Acordo para uso de Alcântara pelos EUA é polêmico",
                Folha de São Paulo, 24/08/03, p A22:

"...Restrições pendentes:
Em 2001, o então ministro Ronaldo Sardemberg, da Ciência e Tecnologia [hoje embaixador em Washington], disse que, ao negociar nos EUA o acrodo para uso da base de Alcântara, os norte-americanos queriam que o Brasil desistisse do VLS. Ele afirmou à revista "Veja" ter respondido que não havia ido lá para negociar o VLS, mas para começar a negociar lançamentos a partir de Alcântara..."

Comentário: A inserção acima, e a abertura da seção de debates anonimizados abaixo, se fazem prudentes frente aos fatos:

Fato 1: O ministro da Defesa explica no Jornal Nacional de 25/08/03: "Não foram detectadas emissões eletromagnéticas no local". Não foram por que os detectores fritaram na explosão?

Fato 2:. Leitores acusam o autor de, dentre outras coisas, "delírio ideológico", "complexo de nanismo", "ingenuidade", "burrice", acusar sem provas, etc.

(*)- O autor: ATC PhD em Matemática Aplicada pela Universidade de Berkeley, Professor de Ciência da Computação da Universidade de Brasília (UnB), coordenador do programa de Extensão Universitária em Criptografia e Segurança na Inoformática da UnB, representante da sociedade civil no Comitê Gestor da Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira.
 


Debate sobre o artigo 
"Incidente em Alcântara"

Questionamento de leitores, devidamente anonimizados, são aqui respondidos.

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25/08/03

> A sua "Teoria da Conspiração" referente à base de Alcântara é realmente um primor. Um primor de delírio ideológico, ou de "complexo de Nanismo". Talvez a derrota da seleção de futebol na final do pan-americano tambem seja uma conspiração norte americana, dessas que o sr PhD identifica nas ameaças malévolas contra governos tão democráticos e respeitadores dos direitos humanos como os do Irã e da Coréia do Norte
A vassalagem se amedronta com o espectro da liberdade num mundo sem lei, num mundo onde impera a lei do mais forte. A solução adequada para a inquietude dos vassalos, diz o folclore, é vender o sofá.

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26/08/03

> O autor diz:
>
>   "Para piorar, já na primeira entrevista coletiva as autoridades responsáveis teriam prontamente descartado, segundo notícia no canal Band News de 23/08, a possibilidade de sabotagem. O flagrante açodamento desse descate torna tal hipótese, para um arguto observador, inicialmente a mais provável."
>
>  Trata-se de uma lógica duvidosa: "Se autoridades responsáveis afirmam ~A então A". Mil desculpas mas não fica de pé um raciocínio desses, é falacioso e gratuíto no texto. Além disso é o gênero do argumento do paranóico: "-Se X negou então é porque é" e daí para a frente. Numa mesa de bar entre amigos... vá lá, mas penso que esse tipo de coisas em público pega mal à beça.


O leitor não está sendo um observador arguto o suficiente, pois desenvolve raciocínio falacioso e gratuito nessa crítica, ao sofismar ignorando elementos cruciais trazidos à baila pelo autor. Se o objetivo da investigação é apurar os fatos publicamente, não se pode descartar uma hipótese antes da investigação começar. A investigação mal começou e o argumento de autoridade é usado para descartar a hipótese que teria consequências mais graves, que é a da sabotagem.

Junta-se o fato de que o investigador encarregado por si mesmo de produzir explicações e eventuais elementos de responsabilização é o proprio investigado, que poderá ao final, portanto, ser o responsabilizado, conclui-se daí que o objetivo oculto desta investigação poderá acabar sendo o de acobertar, e não o de apurar publicamente os fatos.

A raciocinio do autor, portanto, leva à conclusão de que a lógica duvidosa está no processo de apuração dos fatos. A atribuição dada ao próprio investigado para investigar pode gerar conflito de interesses. Pode levar a distorções, onde o objetivo anunciado poderá estar em oposição ao instinto de preservação dos investigadores. Exatamente como no processo eleitoral brasileiro. E parece que os críticos de primeira hora com vocação para vassalagem, que não sabem nem querem saber o que é cidadania, nunca aprendem. De qualquer forma, para facilitar o aprendizado da cidadania aos leitores que a issose dispuserem, aceito a crítica e reviso a v.3 deste artigo para acrescentar, à frase citada: [posto que o investigador neste caso é o próprio investigado]
 

>  Tem outras coisas incômodas no texto também. Iran e Coréia do Norte estão longe de serem exemplos de democracia. Querer acreditar que essas duas ditaduras arcaicas pretendem apenas desenvolver tecnologia espacial é no mínimo ingênuo.


Gratuita e falaciosa é a inserção do qualificativo "apenas", que o leitor coloca na boca do autor. Ingenuo é acreditar que qualquer país pode encarar o jogo da chantagem geopolítica de hoje sem a capacidade de lançar bombas sobre grandes distâncias.
 

 > Na minha opinião prefiro não nos associarmos à defesa de ditaduras sanguinárias quando lutamos pela transparência da nossa Democracia, me parece um pouco contraditório.


Quem está se associando é o leitor, com seu "apenas", não o autor. O autor está lembrando o leitor de como a politica imperial está sendo praticada, não apenas anunciada. Ou será que o Brasil deve abrir mão do esforço para desenvolver know-how aeroespacial militar, para não "se associar" a ditaturas arcaicas e sanguinárias que também se esforçam? Até que ponto a hipocrisia imperial nos motivos alegados para a invasão do Iraque vai contaminar o raciocínio de todos, inclusive dos bem intencionados, alimentado a covardia irracional dos que têm vocação para vassalagem? Já são 21 os mortos, não há mais lugar para covardia nesse debate.
 

>  Outra, de natureza técnica: até onde sei pouco importa o número de portas abertas ou não no teu computador, se o mesmo não está conectado à rede aberta ao exterior não há meios de penetrá-lo e/ou vigiá-lo de fora. Em qualquer empresa séria a rede onde se mantém dados sensíveis é local e desconectada fisicamente do exterior. Será que a rede de controle do foquetão estava conectada à Internet? Se sim, sinto muito, mas isso seria então a prova cabal de uma tremenda incompetência dos responsáveis. Não acredito nisso, nem mesmo os milicos fariam uma burrice desse tamanho.


Eles não são burros. Eu acho que eles prendem um fio bem comprido no foguete (e bastante resistente ao calor que sai do rabo) para monitorar a sua subida, evitando se exporem à tecnologia wireless, vulnerável à sabotagem. E que eles esticam um cabo coaxial do maranhão até s.j. dos campos, e gastam boa parte dos 30 milhões anuais mantendo soldados ao longo do caminho, vigiando o cabo para que ninguem grampeie, evitando assim a sabotagem através de portas de fundo no único sistema operacional que sabem, eles e os críticos deste alerta, usar. E que, portanto, numa investigação deles sobre eles mesmos, eles não precisam nem nos dizer como fazem isso, pois ninguém vai pensar que eles são burros. Burro e paranóico é o professor que faz este alerta.
 
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27/08/03

>   Permita-me retornar à frase, "Para piorar, já na primeira entrevista coletiva as autoridades responsáveis teriam prontamente descartado, segundo notícia no canal Band News de 23/08, a possibilidade de sabotagem. O flagrante açodamento desse descate torna tal hipótese, para um arguto observador, inicialmente a mais provável."

Agora acrescida do adendo "posto que o investigador neste caso é o próprio investigado"

A -> ~A é algo bastante curioso. Veja:

1. A -> ~A
2. A        (hipótese)
3. ~A       (de 1. e 2.)
4. A & ~A   (de 2. e 3.)

A & ~A é uma contradição. De sistemas contraditórios pode-se deduzir tudo, o verdadeiro e o seu contrário. Ou me engano?


Penso que o leitor se confunde ao simplificar a lógica em que foi originalmente instanciada a tal sentença (por ele chamada de A -> ~A). E, ao simplificá-la, dá margem, intencionalmente ou não, a sofismas que deturpam o sentido da frase, e que, por sua vez, tendem a amplificarem-se com carga emocional.

A confusão ocorre na omissão dos sujeitos das subsentenças em que se decompõe gramaticalmente a sentença em foco. A sentença agrega subsentenças nas quais os sujeitos são distintos. O fato de o sujeito da última subsentença estar oculto, não autoriza o leitor a considerá-lo o mesmo sujeito da primeira subsentença. A estrutura gramatical de ambas subsentenças impede esta possibilidade, uma vez identificados no contexto os respectivos sujeitos, visto que o autor do artigo não é autoridade responsável pelo programa espacial brasileiro.

Portanto, tratar o sujeto da sentença em foco como um obervador abstrato do mundo das idéias e formas perfeitas de Platão, algo que seja, ao mesmo tempo, o sujeto das subsentenças que a compõem, é uma suposição que pode induzir a erros, e ao paradoxo que tanto incomoda alguns leitores.

Em resumo, o contexto do artigo e da sentença em foco é o mundo da vida, e não o mundo de Platão. No mundo da vida, quem disse "...a sabotagem está descartada..." foi um sujeito, e quem disse "...a sabotagem é a hipótese mais provável" foi outro sujeito. E esses podem entender os fatos de forma diferente.

Daí, conforme explico adiante, a lógica adequada para analisar esse discurso dialógico não é a lógica clássica de primeira ordem sobre o cálculo de predicados, empregada na interpelação que faz o leitor, e sim qualquer lógica paraconsistente. Isto porque estamos diante da possibilidade dos distintos sujeitos dialogantes no texto tentarem construir semânticas (significados) distintas para os mesmos fatos.

A sentença em foco pode ser analisada, por exemplo, através de uma das lógicas paraconsistentes que foram pioneiramente propostas e formalizadas por Newton da Costa (para homenagear um ilustre filósofo e lógico brasileiro), com uma das semânticas de "mundos possíveis" propostas pelo filósofo e lógico Saul Kripke.

Observe, ou verifique, que uma lógica paraconsistente se reduz à lógica clássica (de primeira ordem sobre o cálculo de predicados) se e só se as semânticas dos sujeitos envolvidos no discurso forem identificáveis como "a mesma". As lógicas paraconsistentes surgiram para (melhor) modelar o mundo da vida, para calcular até onde, e como, afirmações sobre diversos "mundos possíveis", mundos produzidos pelas percepções dos distintos sujeitos que instanciam tais afirmações, podem ser combinadas para produzir algum sentido, sem gerar o curto-circuito da inconsistência.

E observe, finalmente, o fato de que, no contexto da sentença em foco, existe, em princípio, mais de uma explicação possível para os fatos ocorridos em Alcantara (mais de um "mundo possível", no jargão das semânticas para lógicas paraconsistentes), e que este fato é o nó do nosso debate sobre tal sentença.

Vamos então, primeiramente, à análise semiológica desta sentença na semiótica em que foi originalmente instanciada. Ou seja, através de uma lógica paraconsistente.

Sujeitos do contexto:
X: autoridade responsável pelo programa espacial
Y: observador externo ao programa espacial (no caso, o autor do texto)
Z: observador que observa Y obsevando X (no caso, o leitor crítico do texto)

Abreviação de sentenças:
A: "não houve sabotagem"

A formalização do raciocínio do autor seria:

Premissas do contexto -
SUBSENTENÇA S1: X será humilhado e provavelmente punido por negligência se ~A.
SUBSENTENÇA S2: X se apresenta como autoridade para julgar se A ou ~A.
SUBSENTENÇA S3: X instancia S2 em contexto no qual, conhecendo melhor que ninguém os fatos subjacentes necessários para se estimar a probabilidade de A ou ~A, porém ainda desconhecendo os fatos necessários para julgar se ocorreu A ou ~A, ato contínuo, afirma A.

Silogismo em análise -
Sentença S4:
Y afirma [ S1,S2,S3 -> [ X afirma A -> É mais provável que ~A ] ]

Note que, embora S1, S2 e S3 não estejam sintaticamente representadas na instância original de S4, estão lá conotadas pela subsentença "..., para um observador arguto,...", remetendo o leitor ao contexto das sentenças precedentes, onde as subsentenças S2 e S3 se instanciam e S1 se conota. Resta saber qual o cálculo de probabilidades usado pelo autor para construir a última subsentença de S4, "é mais provável que ~A"

Em que se baseou esse cálculo de probabilidade? Em leis naturais do mundo da vida que alcançaram expressão na semiótica e na estatística. Da semiótica, um princípio conhecido, e usado por políticos experientes, que diz "na política não existem fatos, existem versões". Da estatística, a teoria dos jogos. Combinadas, essas expressões produzem copiosas evidências empíricas, como no legado nazista de Göebels, por exemplo.

Se uma versão for pobre em plausibilidade e evidências ela precisará, para prevalecer como fato, ser rica em precocidade, ubiquidade e persistência. Qualquer abilolado pode ofertar versões precoces como se fossem fatos, mas só os poderosos podem sustentar tais ofertas de forma ubíqua e persistente. Portanto, a capacidade de sustentar versões como fatos é privilégio dos poderosos, capacidade esta, alías, que usam frequentemente para se manterem no poder.

Note que, em alguns casos, o propósito de se sustentar uma versão precoce, ubíqua e persistente como se fora um fato pode levar, pela consumação mesma desse propósito, à desmoralização de quem fez a oferta, se a consumação do propósito revelar a versão como apenas versão e não fato, esvaziada sua persistência. Em semióticas de âmbito restrito, isto se chama estelionato. Em semióticas gerais, como no jogo político, temos o exemplo da versão das armas de destruição em massa no Iraque, com o propósito de se justificar a invasão.

Ocorre que num mundo hipócrita a desmoralização é pena leve, o que torna esse risco aceitável. Porém, aceitavel ou não, trata-se de um risco da engenharia social, e não de uma falha técnica no processo semiológico que faz de uma versão, através da sua precocidade, ubiquidade e persistência, um fato.

O que deduzimos no caso de Alcântara, de S1, S2 e S3, é a precodidade da versão A oferecida como fato, por um poderoso para quem ~A será um mau negócio. O que isso sinaliza? A engenharia social, neste caso, quer oferecer como premissa o fato de que a versão A está sendo oferecida (precocemente como fato) justamente por quem sabe, inicialmente, melhor calcular as propabilidades de A e ~A.  Mas isso explica antes e melhor a necessidade da precocidade na oferta (da versão A como fato), do que a transformação da sua probabilidade em certeza (de versão em fato). Por que?

Primeiro, porque a transformação da probablidade de A em certeza de que A só pode ocorrer por prova refutativa ("NÃO foram encontrados indícios de sabotagem"), prova cuja natureza, refutativa, pressupõe a completude investigativa: e a investigação mal havia começado. Segundo, porque, na ausência de prova refutativa, a precocidade se faz crucial para a sustentação da versão como fato: prova esta que, se encontrada, estaria sob o alcance de destruição pelo ofertante, se mantida sua autoridade investigativa.

O ato de X posar de investigador daquilo pelo qual responde, enquanto, ao mesmo tempo, declararia a inexistência de um certo tipo de prova refutativa na investigação que mal se incia, é uma performance que abarca gestos e palavras. E gestos, quando falam, falam melhor do que as palavras. Não se trata de um ataque à honra de X, mas de uma observação sobre a natureza humana.

O que teria levado X a precocizar A como fato, a oferecer probabilidade como certeza, no discurso desta performance? Uma análise pela teoria dos jogos (daria aqui um outro artigo) é capaz de explicar porque a hipótese da sabotagem, ~A, seria, pela lógica dos seus gestos, a mais provável hipótese na intimidade do seu raciocínio, supondo a racionalidade do conjunto desses gestos.

Praticados por um sujeito que sustenta, ao mesmo tempo, credibilidade para calcular probabilidades de A e ~A e responsabilidades pelas consequências se ~A, são gestos que resultam numa auto-agressão, talvez irracional, à sua credibilidade. Se ele, em sua intimidade, acreditasse realmente no oposto da última subsentença de S4, isto é, que a probabilidade de A é mesmo antes maior que a de ~A  (Pr(A) > Pr(~A)=1-Pr(A), sabendo-se inicialmente apenas que 0 < Pr(A) < 1), por que ele atacaria sua própria credibilidade, principalmente como investigador, oferecendo esta maior probabilidade como certeza? (Pr(A)=1)

Neste caso, só um dos elementos da performance pode ser considerado racional: ou o conjunto de gestos, ou o discurso de X (se descontarmos "o exagero"). Mas não ambos. Trata-se do tipo de paradoxo que o filósofo Jürgen Habermas chama de contradição performativa. Contradições performativas não são coisas estranhas, pois estão por trás de praticamente todo dilema moral. Doutra feita, ignorar os gestos e ater-se às palavras, enquanto os gestos apontam em direção contrária, é sofismar. E ainda, o observador que desdenhar a eloquência dos gestos por temor à pecha de paranóico sofismará em dobro, realimentando assim a hipocrisia do mundo.

Qual é a diferença entre paranóia e cautela? Como esta pergunta é subjetiva, os fatos que constituem o palco e a performance de X, ensejando S4, sinalizam sua última subsentença para aqueles que, como Y, não desejam sofismar, não alimentam temor paranóico da pecha de paranóico conspiracionista, e acreditam que gestos eloquentes o são mais que palavras. O propósito de Y ao ofertar S4 é o de confrontar a precocidade da versão-A-enquanto-fato para evitar que, persistindo A em toda a parte, A se torne fato antes do devido e correto momento de vir a sê-lo.

Portanto, se Z quiser fazer uma análise de S4 condizente com a semiótica onde foi originalmente instanciada, que pressupõe X e Y como observadores capazes de sustentar percepções distintas do significado dos fatos pertinentes a A ou ~A, terá que fazê-lo sob uma lógica compatível com esta semiótica (uma lógica paraconsistente). O que acontece se Z usar uma lógica incompatível em sua análise? Vejamos

Ao oferecer a análise com que interpela o autor, Z está transportando S4 para outra semiótica, a do mundo de formas e idéias perfeitas de Platão, que pressupõe a lógica clássica. E, na lógica clássica, se o sistema a ser formalizado for categórico, a consistência implicará em semânticas isomorfas para os sujeitos representados no sistema. Por isso Z se vê forçado, se quiser ser categórico, a ignorar a possibilidade de X e Y (e também o próprio Z!) atribuirem significados distintos aos fatos observados. E assim ele quer, e o faz, tornando inconsistente a sentença resultante da mutilação que precisa, para isso, operar em S4.

S4 mutilada pela premissa categórica:

X afirma A -> É mais provável que ~A

O "paradoxo" surge quando a premissa categórica mutila S4, e é arremessado contra Y quando a mutilação de S4 é tida por S4, como conotado na interpelação que Z faz a Y, acima. (e Y, para se desviar do arremesso, precisa se desdobrar nesta análise, apontando as falhas na análise de Z e soletrando a contradição performativa de X)

Portanto, é enganoso o paradoxo que surge quando Z escolhe a lógica clássica para analisar S4, ao mesmo tempo em que tenta ser categórico, presumindo existir uma única explicação possível e consistente para os fatos. A abordagem classico-categórica de Z ofusca a contradição performativa de X, onde está o verdadeiro paradoxo, enquanto tenta exorcizá-lo da última subsentença de S4, que certamente o inquieta.

Toda esta manobra fica obscurecida pelo argumento de autoridade, que procura assentar a premissa categórica no fato de X ser autoridade e Y ser um burro paranóico que se atreve a sabichão. E esse argumento, como empregado no caso, por quem tampouco é autoridade do programa espacial mas se arvora autoridade para julgar a paranóia alheia, é o que Y chama de vassalagem.

Resumindo: A lógica escolhida por Z é suficiente para a semiótica (lógica mais contexto e premissas) à qual Z transportou S4, mas essa semiótica é incompatível com aquela na qual S4 foi originalmente instanciada, visto que a mutilação necessária para operar esse transporte compromete o significado que S4 pretende oferecer em sua ilocução original.

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2/09/03
 

> É uma análise apoiada em tecnologia, bem fundamentada, mas, a meu ver, de risco. A prova é a base para formatar qualquer acusação. A França é uma nação pouco confiável. Não sou político, sou auditor.


Trata-se de um comentário que sugere estar o referido artigo fazendo acusação. O referido artigo está analisando hipóteses, com o objetivo de subsidiar dois atores distintos.

Um, a quem caiba investigar, apontando onde podem ser encontrados indícios que, existindo, juntos e com muita sorte, possam constituir prova de que houve sabotagem. E também que, existindo, juntos e com algum bom senso, possam independentemente constituir prova de que houve negligência.

Dois, em auxílio ao público, oferecendo-lhe elementos de juízo sobre a competência e eficácia dos que vierem a desempenhar a tarefa de investigar o incidente, no que tange à execução da dita tarefa. Para encontrar indícios, quem procura precisa, antes, querer encontrá-los.

Doutra feita, um auditor deveria saber melhor que palavras como "suspeita", "provável", "hipótese", "alerta" falam antes de risco ou de trilhas investigativas, do que de autoria ou de responsabilidade por crime. Não há, portanto, razão para se insinuar laconicamente constituir o referido artigo peça acusatória.

No mais, não vejo no quê a França seria diferente doutras nações, no tocante à confiança que possa inspirar. Vejo, outrossim, sinais de vassalagem ou peleguismo na tentativa de se querer destacá-la no contexto do referido artigo pela pouca confiabilidade.