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Da inteligência coletiva à legião de imbecis

Prof. Pedro Antonio Dourado de Rezende
Departamento de Ciência da Computação
Universidade de Brasília
novembro de 2017


Entre 20 de novembro de 2017 e 17 de janeiro de 2018 autor manteve, numa lista de emails dedicada ao Direito, Justiça e informática, troca de mensagens a respeito do tema que nomeou a thread e este artigo. Como a lista é fechada, alguma edição foi necessária: autores respondidos são identificados por iniciais; [texto entre colchetes] são insertos que visam a preservar o sentido original do conteúdo postado, e elipses ... são supressões convenientes a esta edição.


email 1: 2017 Novembro 20, PC:
Saímos da fase romântica da internet, da 'inteligência coletiva' do Pierre Lévy e ingressamos na era da 'legião dos imbecis' do Umberto Eco (vejam essa matéria no The Gardian). Continuo entusiasta da inteligência coletiva da rede, mas agora tempero o meu triunfalismo com uma dose bem grande de prudência. Há energias de emancipação e dominação na rede. Mas o poder econômico aprendeu a capturar a energia de cooperação social; a rede não é mais uma externalidade econômica.

email 2: 2017 Novembro 20, Pedro Rezende

Sim, o poder econômico aprendeu a capturar a energia de cooperação social até aqui, mas as manifestações da inteligência coletiva no ciberespaço não pararam no tempo, e o momento para um teste de litmus finalmente chegou: o poder econômico não sabe ainda como capturar a mais crucial e decisiva dessas manifestações, expressa na onda adotiva da primeira criptomoeda descentralizada -- ainda ganhando massa crítica para sua prometida função de reserva de valor (as funções de meio de troca e de unidade contábil podem aguardar) -- mas não pode desistir.

A partir do mês que vem esse poder vai finalmente testar sua estratégia massiva para a captura, que porá a prova a eficácia do seu até aqui imbatível arsenal, agora contra um fenômeno inédito na história financeira. Quando a bolsa de mercadorias e de futuros de Chicago começar a negociar derivativos sobre o valor do bitcoin, liquidáveis em moeda fiat. Essa estratégia tem funcionado contra a alternativa dos metais nobres, mas será que vai funcionar contra a primeira moeda descentralizada, incensurável e inconfiscável? Ou os agentes desse poder estarão assim entrando no quarto estágio do luto, como sugere o criptógrafo que poderíamos chamar de embaixador do fenômeno? Vamos aguardar, Nessa cautela, não perdemos por esperar um veredito final

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email 3: 2017 Novembro 22, PC:
Esperamos que o blockchain venha romper com o poder financeiro planetário, embora ele já esteja empenhado em capturar também as criptomoedas. O reset financeiro trará consequências inimagináveis. O [Thomas] Piketty demonstrou que só houve redistribuição de renda no planeta depois das duas grandes guerras. Essa guerra financeira será a maior de todas.

email 4: 2017 Novembro 22, BM:
Sinceramente? Duvido muito da possibilidade desse cenário. A história recente já mostrou que o poder estabelecido é ótimo em pegar uma tecnologia revolucionária e altamente disruptiva e transformar em uma forma deles ganharem ainda mais. A Internet é um ótimo exemplo disso, de um espaço completamente anárquico e cheio de possibilidades em poucos anos se transformou em um playground de luxo para grandes empresas como Google e Facebook. Vários bancos e empresas tem investido pesadamente na tecnologia blockchain e empresas como a Ethereum já estão desenvolvendo meios de se regulamentar através da força financeira o cenário de absoluto descontrole do bitcoin. Da mesma forma que do Napster ao Spotify muita coisa mudou acredito que o mesmo acontecerá com o Blockchain ate no dia não muito distante em que estivermos falando uns para os outros "você prefere que eu pague em GoogleCoins ou FaceCoins?"

email 5: 2017 Novembro 22, Pedro Rezende

Blockchain existe desde que o apóstolo Paulo inaugurou a mesma estratégia para evitar forja de suas epístolas na emergente rede da igreja primitiva. A novidade tecnológica que provoca esse "barata voa" não é propriamente o Blockchain, mas sua aplicação para gestar moedas virtuais de controle descentralizado. Com ou sem GoogleCoins e Facecoins, talvez os centros milenares de poder não consigam capturar pela força financeira esse cenário enquanto confundirem inédito e líquido autocontrole com absoluto descontrole.

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email 6: 2017 Dezembro 03, PC:
[Deu no jornal de Negócios, que o Joseph] Stiglitz quer banir o bitcoin. Cito o trecho:
    O Nobel da Economia sublinha que as únicas vantagens da criptomoeda são a capacidade para ser usada na evasão e o fato de estar isenta de supervisão. "Isto é simplesmente uma bolha (...) que dá uma série de momentos entusiasmantes, à medida que sobe e cai," afirma.

email 7: 2017 Dezembro 03, Pedro Rezende

Para uma perspectiva mais abrangente sobre esse tipo de notícia que vem pingando aqui acerca do tema, a melhor análise que já encontrei foi esta aqui, de Daniel Jeffries.

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email 8: 2017 Dezembro 03, LR:
Banir é inútil e terá muito pouco resultado prático (a Tailândia por exemplo já baniu e a Rússia está no mesmo caminho e isso não influenciou em nada). Notícias como essa apenas vão servir de mais propaganda pro bitcoin. A melhor maneira de fazer o bitcoin acabar como muitos querem é deixar ele seguir seu caminho e, eventualmente, repetir o ciclo da mania das tulipas, até porque bitcoin como está hoje não é algo sustentável a longo prazo.

email 9: 2017 Dezembro 03, RV:
Banir não vai dar certo. Mas se começarem a bater na tese de "esquema Ponzi" a coisa pode complicar. Casos como o da Coingather mostram o quanto a situação de fidúcia pode ser abalada. Uma exchange situada nos EUA quebra, milhares de usuários perdem seus bitcoins. E agora? O Estado pode rastrear e forçar o criminoso para devolver as chaves privadas? Os libertários "anônimos" que possuem grande quantidade de riqueza não declarada alocada em bitcoins irão se identificar perante o FBI para iniciar uma investigação criminal e tentar obter o dinheiro de volta. É a mesma lógica da assinatura digital: de nada adianta ter chaves públicas e privadas criptografadas e inquebráveis se a pessoa empresta o token com a senha por aí... A tecnologia da blockchain garante segurança, eficiência e privacidade (ou seja, tem "valor"), mas os várias elementos humanos que atuam na operação de bitcoins e criptomoedas em geral pode ser explorado para atender os mais diversos fins.

email 10: 2017 Dezembro 03, BM:
Esses dias [deu no Forbes que] o pessoal do bitcoin também teve uma derrota significativa nas cortes americanas que obrigaram a coinbase entregar informações de seus clientes para o IRS, a receita federal americana, para verificar se tem gente movimentando dinheiro sem declarar no imposto de renda. O bitcoin em si não tanto mas tá cheio de criptomoeda que são esquemas ponzi disfarçados por ai, inclusive aqui no Brasil. Essas ICOs que estão havendo direto e reto são um bom indício desse tipo de coisa.

email 11: 2018 Janeiro 17, SS:
Concordo com [BM]. Aliás, o Bitcoin me lembra aquela história de pirâmide onde os que estão embaixo pagam e os que estão no topo recebem e depois saem. Aí, os últimos a entrar tomam o prejuízo

email 12: 2018 Janeiro 18, Pedro Rezende

Esse tipo de manifestação de quem dá sinais de não conhecer, ou não querer conhecer, o protocolo e sua forma de governança me faz lembrar de uma certa parábola hindu >




Autor

Pedro Antonio Dourado de Rezende é professor concursado no Departamento de Ciência da Com­putação da Universidade de Brasília, Advanced to Candidacy a PhD pela Universidade da Cali­fornia em Berkeley. Membro do Conselho do Ins­tituto Brasileiro de Política e Direito de In­formática, ex-membro do Conselho da Fundação Softwa­re Li­vre América Latina, e do Comitê Gestor da Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira (ICP-BR). http://www.­cic.unb.br/~rezende/sd.php

Direitos de Autor

Pedro A D Rezende et. al., 2017:  Este debate é publicado no portal do editor-coautor, com os demais coautores anonimizados, sob a licença disponível em http://creativecommons.org/licenses/by-nd/2.5/br/