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Para que servirá a NetMundial?

Entrevista a Tadeu Breda
Portal de Notícias Rede Brasil Atual


Prof. Pedro Antonio Dourado de Rezende
Departamento de Ciência da Computação
Universidade de Brasília
  21 de abril de 2014


Tadeu Breda: 1 -Quem manda na internet hoje em dia? Por quê?

Pedro Rezende: A internet é, antes de mais nada, um acordo técnico para comunicação global entre redes de computadores, e portanto há vários aspectos a considerar numa resposta. Inicialmente, para que um tal acordo funcione é necessário que certos padrões digitais de comunicação sejam projetados, testados e, quando funcionam bem, adotados, com sua evolução
administrada. Isso é feito colaborativamente, desde pelo menos quando o projeto ARPA passou à administração da National Science Foundation, pela organização denominada IETF ("força-tarefa de engenharia da Internet"), que funciona como se fosse seu órgão técnico global.

Os padrões tecnicos acordados pelo IETF podem ser implementados por empresas ou entidades interessados em conectar sua rede às que já se intercomunicam através desses padrões, instalando os respectivos softwares e serviços para as formas específicas de comunicação digital,
tais como resolução de nomes, correio eletrônico, hospedagem de sites web, acesso de usuários a serviços similares noutras redes, etc, e existem soluções livres e desenvolvimento colaborativo disponíveis para se instalar praticamente tudo isso.

Mas para que funcionem interligadas às demais que integram a Internet, uma nova rede precisa receber uma faixa de endereços que seja única entre as demais, e aí é que entra o órgão poíltico de alcance internacional da Internet, o ICANN. A função principal do ICANN é distribuir faixas de endereços numéricos entre interessados, regras para os correspondentes nomes entre redistribuidores, e gerenciar a principal camada na hieraquia de nomes.

Essas novas faixas são atribuídas a solicitantes dentre os ainda não ocupados de um espaço de possíveis endereços, espaço que é estabelecido pelos padrões do IETF (quase já esgotado para o padrão IPv4, e praticamente ilimitado para o IPv6). Da mesma forma com os chamados nomes de domínio, pelos quais esses serviços virão a ser conhecidos dos usuários, conforme algum critério e mecanismo de disputa que devem ser públicos e administrado por redistribuidores.

Na prática, a internet é uma rede heterogênea de redes de computadores onde cada um manda na sua, tendo cada uma ao integrar-se concordado tacitamente em contribuir para que flua o tráfego atravessante, se houver, conforme os protocolos de roteamento estabelecidos pela IETF. Como as cidades que se interligam numa malha viária federada, sob um regime de leis de trânsito. Porém, existem redes e redes. A rede de uma grande operadora de telefonia, por exemplo, funciona mais como uma via
expressa, espécie de galho grosso de árvore por onde as transmissões de muitos precisam passar ao irem de uma folha a outra.

Os donos dessas grandes redes e os governos com aspirações hegemônicas já perceberam que se agirem de forma uníssona nos grandes entroncamentos ou se fundirem seus negócios, podem interferir durante o roteamento para forçar o desenho conceitual da malha em uma estrutura hierárquica do tipo árvore, que tem tronco único. E isto hoje, não só em termos econômicos ou políticos, mas em tempos de guerra cibernética, significa muito poder. De controle, de manipulação, de bisbilhotagem, etc.


TB: 2 -Que resultados podem nascer da NetMundial?
 
A Conferência acontece como consequência de um fato político que decorreu das denuncias de Snowden. As denúncias revelaram uma realidade que no imaginário popular antes parecia apenas um possibilidade o tendencia. O que essas denúnicas revelam é uma parte essencial de um plano ofensivo de guerra cibernética posto em marcha para implantar um regime dominante de vigilantismo global, necessário para se implantar uma nova ordem mundial, a pretexto do inevitável jogo de espionagem das nações, nele camuflado como combate ao terrorismo, cibercrime, etc.

Para os Estados que buscam defender sua soberania, e para os grupos organizados da sociedade civil que entendem o valor da privacidade e liberdade de expressão, e defendem os correspondentes direitos para a autonmia -- e no extremo a sobrevivência -- individual nesse contexto de ciberguerra, a única arma possível para resistir ao plano hegemônico e é a descentralização.

Acredito portanto que os resultados possíveis da NetMundial serão na direção de novos arcordos de descentralização em planejamento e operações da Internet. Isto quer dizer mais democracia no ICANN, mais autonomia para os redistribuidores, e mais organização entre entidades civis para demandar serem ouvidas em decisões sobre padrões e operações na Internet. Mas como lembra o jornalista Osvaldo Grossmann na Convergência Digital, isso é mais fácil de dizer no papel do que fazer acontecer no
ciberespaço. Ainda mais quando se tem que remar contra a maré.


TB: 3 -Tem se falado que o principal objetivo da NetMundial será a internacionalização do Icann. O que isso significa? Isso pode reduzir a hegemonia dos Estados Unidos sobre a internet?

No começo deste mes o site Wikileaks publicou um rascunho da agenda que está sendo preparada pelo comitê executivo da Conferencia, formado por representantes de 12 países, incluindo os EUA. Essa pauta reflete preocupação com o impacto que a vigilância global praticada ou sancionada por governos está tendo sobre a privacidade da população do planeta conectada à Internet e sobre a sua infra-estrutura, bem como as consequências da militarização do ciberespaço.

De fato, nos últimos conflitos, da primavera árabe à desintegração da Ucrânia, passando pelo Irã, Síria e Turquia, pudemos observar o uso de armamento cibernético pesado operado para fins militares ou políticos, à margem dos padrões técnicos ou civis de uso acordados nos respectivos forums. Não obstante, o foco da Conferência, conforme descrito no seu site oficial, está em elaborar "princípios de governança da Internet e proposta de um roteiro para o desenvolvimento futuro desse ecossistema", representando "o início de um processo para a construção de políticas no contexto global, seguindo um modelo de pluralidade participativa".

Como os EUA concordaram em participar, podem estar interessados no que acreditam deva ser o resultado da iniciativa, inclusive influenciando nessa direção como participante. Podem buscar um efeito psicológico, de terem a quem culpar se aquela tendência que podemos chamar de balcanização da internet seguir seu curso, como também podem buscar um efeito político, de parecerem estar civilizadamente cedendo algum controle sobre distribuição e resolução de endereços e nomes, na medida em que acreditem poder fazê-lo sem comprometer sua atual capacidade ofensiva cibernética. Não considero outras possibilidades pois não acredito que os EUA possam no momento ser coagidos ou cooptados a ceder controle na rede por pressão diplomática ou de opinião pública.


TB: 4 -É possível haver uma governança multissetorial e multilateral da internet?

Veremos. A julgar pela experiência brasileira, de composição do nosso CGI, que na Conferência da ONU sobre Sociedade da Informação em Tunis 2005 desfilou como modelo disso, e hoje parece dominada pelos interesses das grandes empresas de telecomunicações, talvez seja possível mas só de fachada. Embora alguma multilateralidade pareça já estar ocorrendo na prática, mas não no sentido de uma governança no singular, já que atropelam as iniciativas negociadas e consentidas entre setores conflitantes: aquilo que nos referimos por balcanização da internet, quando governos de países decidem usar armas e táticas da ciberguerra para controle psicológico ou da comunicação digital interna.

Cito como exemplo o caso mais recente, na Turquia, que me parece emblemático do tempo em que estamos entrando. O primeiro ministro Erdogan mandou bloquear em todo o país o site tweeter depois que um tweet circulou anunciando para breve um vazamento bombástico. Mesmo com a suprema corte declarando-o ilegal, o bloqueio continuou, via interceptação à resolução de nomes em servidores DNS como os do Google, até que o vazamento surgiu, no youtube: era a gravação de um telefonema entre Erdogan e um comandante militar planejando combinar com a Al-Qaeda um ataque de bandeira falsa contra a Turquia, a partir de um enclave dos terroristas na Síria. Assim como o ataque de bandeira falsa com gas mostarda em Bagdad, Assad seria acusado através da mídia corportativa, desta vez para justificar uma resposta militar da OTAN por um "ataque" da Síria a um país membro. Então foi a vez do youtube ser bloqueado.

Como estamos na esfera de influencia da OTAN, a imprensa corporativa no Brasil apenas replicou matéria da Agência Reuters: o youtube teria sido bloqueado na Turquia por causa do vazamento de um telefonema em que autoridades turcas "discutem opções militares na Síria". Causa espécie a reação, mas nada sobre as tais opções. Uma internet multissetorial torna menos eficazes as operações psicológicas envolvendo ataques de bandeira falsa, tática preferida dos grandes banqueiros pra provocar guerras globais, com as quais eles são os que mais ganham. Como esses banqueiros estão precisando provocar mais uma para não perderem sua hegemonia sobre as finanças planetárias, entendo que ficará cada vez mais difícil defender a liberdade de expressão na Internet.


TB: 5 - Que proposta o senhor defende para reduzir o controle de governos sobre a internet?
 
Infelizemente não acredito em qualquer proposta efetiva neste sentido enquanto a postura do cidadão médio com respeito à privacidade e à cidadania continuar a mesma. E continua a mesma, na medida em que segue aceitando passivamente a virtualização das práticas que o tornam um ser social, ele se expõe à troca desses valores fundamentais pela conveniência de novos hábitos, os quais podem lhe escravizar a certas complexidades que ele não pode dominar. E como em política não existe vácuo, oportunistas virão explorar as oportunidades.

Por exemplo, em democracias, na virtualização do próprio processo eleitoral. Ao aceitar coletivamente essa conveniẽncia, o cidadão cede o direito de fiscalizar a contagem de votos em troca de um fetiche de modernidade, onde o pleito se torna um videogame na internet, e sua lisura passa a ser assunto de especialistas. Se um governo pode se legitimar por meio de fraude invisível e irrastreável, só outro em posição de chantagear, ou Deus, conseguirá reduzir o controle desse governo sobre o que esteja ao seu alcance.

Mas o pior pode estar por vir, quando a distribuição de alimentos e combustíveis nas grandes cidades entrar em colapso devido ao caos com os meios de pagamento, provocado por queda abrupta no valor de troca de moedas sem lastro, no ápice de uma crise financeira que se avizinha. Quando localizadas, provocadas por ataques especulativos a moedas de países periféricos imprudentes ou resistentes ao regime neoescravagista de moedas sem lastro emitidas a juro por bancos centrais privados, tais crises constituem exercícios bélicos com armas cibernéticas adaptadas ao front econômico. Pois quando os efeitos colaterais e secundários desses
feitiços atingirem a bolha essencial do dólar, o feitiço poderá virar contra os feiticeiros e a crise se tornar global, e irreversível sem um transbordamento cinético máximo (guerra de genocídios).


TB: 6 - A NetMundial poderá frear a espionagem em massa na internet?
 
A espionagem é o menor dos problemas. O mais grave é o vigilantismo, que se camufla de espionagem. A espionagem é a bisbilhotice sobre alvos militares ou diplomáticos com propósitos específicos, que sempre existiu e vai continuar existindo. Espionagem em massa é eufemismo para governo paranóico, enquanto esse vigilantismo global é a bisbilhotagem por atacado no planeta com o propósito de aumentar o poder do quem o controla, ao arrepio da ordem democrática ou republicana, inclusive para intimidar, chantagear e fazer escambo com instrumentos semelhantes de outras entidades que também o praticam, exatamente como fazem organizações criminosas como a Máfia.

Não acredito que as decisões tomadas coletivamente nessa Conferência possam frear diretamente nem a espionagem, nem o vigilantismo global informatizados. Mas, dependendo de quais decisões, podem tornar as respectivas operações mais sensíveis, aumentando no imaginário coletivo a percepção de como essa sanha pelo poder pode ser destrutiva para as formas de organização social que impõem limites à tirania e à ganância, no estágio civilizatório em que nos encontramos.


TB: 7 - Como a NetMundial poderá trazer mais segurança e privacidade às comunicações?
 
No front normativo, acredito que a Conferência pode contribuir para diluir temporariamente o poder concentrado em certos atores cujos interesses hegemonicos estão consolidados em alianças estratégicas globais. Mas apenas momentaneamente, pois novas regras de governança funcionarão apenas como diques para esse poder monetizável concentrado, que vai então buscar e encontrar novos caminhos para operar tais alianças, rumo à nova ordem mundial imposta por um regime político tirânico supranacional.

O complexo industrial militar de que nos alertava Eisenhower no fim da Segunda Guerra Mundial agora engloba também um complexo industrial cibernético. As alianças neles forjadas, envolvendo estados e grandes corporações, são cruciais para a forma de guerra contemporânea e não creio que possam ser detidas pela lógica civilizatória promovida pela ideologia contrahegemonica ou multilateralista que anima esta Conferência, embora nesta a tentativa seja um dever moral.

O vigilantismo global hoje opera um arsenal e alimenta um mercado de armas digitais que servem desde interesses militares cinéticos, como a programação de drones para missões contra alvos identificados apenas por dados minerados de serviços on-line, a interesses políticos subterrâneos, como para achaque e chantagem a quem possa criar obstáculos à imposição desse novo regime global, ou a interesses econômicos imediatos, como para manter artificiosamente o sistema financeiro solvente através de esquemas fraudulentos que vão se acumulando em camadas, como por exemplo na manipulação de mercados.

As treze casas bancárias que controlam os grandes bancos, e que também controlam o cartel de bancos centrais privados, as grandes empresas de mídia e as de TI nesta economia globalizada, apostam nas tecnologias digitais como panacéia triunfal para darem sobrevida ao sistema neoescravagista baseado em dinheiro sem lastro emitido a juros, que é a bolha em essência do capitalismo contemporâneo. E também como panecéia para promover uma implosão controlada desta bolha na transição para o emergente hegemon, um regime tirânico global que aspiram e chamam de nova ordem mundial.

Toda guerra é promovida por banqueiros, cuja elite se prepara para a última e permanente. Mas as variáveis a controlar são muitas, enquanto as armas digitais são facilmente replicáveis, apropriáveis e adaptáveis por adversários. Agora que veio à tona a vulnerabilidade "heartbleed" no software OpenSSL, usado em mais de 60% das transações supostamente protegidas por criptografia na Internet, é que iremos finalmente ter idéia das dimensões do descontrole na corrida armamentista promovida no ciberespaço pelos que encarnam o espírito desse emergente hegemon.

Independentemente dos resultados desta Conferência, creio que caminhamos para um cenário de crescente erosão da privacidade e insegurança nas comunicações. Porém, no front psicológico, acredito que a Conferência pode contribuir com algo positivo, que é instruir os indivíduos e entidades mais antenados com o nosso tempo, sobre a geografia política da ciberguerra.
 

TB:
8 - Na opinião do senhor, o que está em jogo?
 
 O que está em jogo na Conferência é uma "tomada de pulso" entre os atores principais da ciberguerra, seja como alvos passivos ou como protagonistas ativos, seja como participantes ou como observadores. Num contexto maior, ela marca um ponto de referência para se mapear o que está em jogo na ciberguerra, onde se intersectam todos os espectros da guerra moderna em escala global: do econômico ao do controle social, do psicológico ao cinético, este desde a guerrilha até o holocausto nuclear.

[Atualização 25/04/2014: Um bom resumo do que aconteceu: por Jeremie Zimmerman da La quadrature du net]

Para quem acredita em profecias Bíblicas, e como eu aceita a doutrina pré-tribulacionista, esta ciberguerra que passa pelo controle da Internet só caminhará para um desfecho, aparentemente conclusivo em favor desse hegemon mas apenas por sete anos, quando um fenômeno sobrenatural desaparecer com muita gente pelo planeta e receber uma explicação convincente, mas falsa, como descrito em Mateus 24, 2 Tessalonicences 2 e Apocalipse 11.



Editor e entrevistado

Pedro Antonio Dourado de Rezende é professor concursado no Departamento de Ciência da Com­putação da Universidade de Brasília, Advanced to Candidacy a PhD pela Universidade da Cali­fornia em Berkeley. Membro do Conselho do Ins­tituto Brasileiro de Política e Direito de In­formática, ex-membro do Conselho da Fundação Softwa­re Li­vre América Latina, e do Comitê Gestor da Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira (ICP-BR). http://www.­cic.unb.br/~rezende/sd.php



Direitos do Autor

Pedro A D Rezende, 2013:  Esta entrevista é publicada no portal do co-autor entrevistado, com a concordância do co-autor entrevistador, sob a licença disponível em http://creativecommons.org/licenses/by-nd/2.5/br/