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Está ruço, ou são os russos?

Prof. Pedro Antonio Dourado de Rezende
Departamento de Ciência da Computação
Universidade de Brasília
11 de setembro de 2015

(Também no Observatório da Imprensa)

Este não é um artigo sobre ortografia. Mas pode ser uma reflexão sobre neurolinguística aplicada; a respeito de como a mídia corporativa manipula e tange a opinião dita "pública" usando vasto arsenal de truques linguísticos e piruetas lógicas. No caso em tela, tomado para ilustrar esta narrativa, à guisa de notícia na área de segurança computacional. A narrativa começa com uma matéria do jornal Washington Post intitulada " Russian hacker group exploits satellites to steal data, hide tracks".

A notícia é engraçada já a partir do título. Se os rastros são escondidos (hide tracks), então não seria possível verificar quem são os autores; mas o Washington Post sabe quem são: um grupo de hackers russos (russian hacker group), claro! O jornal deve ter lá suas fontes privilegiadas e confiáveis, então nem pense que poderia ser um hacker group em Langley, porque aí sim, isso seria teoria da conspiração!

A palavra "conspirar" vem do latim, onde quer dizer "respirar juntos." Sobre isso surgem, como figura de linguagem, teorias e teorias. Existem as tolas e as não-tolas, as despistantes e as investigativas, as especulativas e as verificáveis, etc. O exercício de classificá-las e reclassificá-las, em meio ao nosso desafio de entender o mundo, vejo como útil à manutenção da própria inteligência. Já que a verdade oficial nem sempre é inteligente, nem sempre passa no teste da navalha de Occam.

Após escrever "Langley" e "teoria da conspiração" na mesma frase, cabe lembrar da teoria metaconspiratória originária (que não deve ser confundida com uma metateoria conspiratória qualquer). Esta, podemos chamar também de teoria conspiratória niilista sobre teorias conspiratórias: Ela dogmatiza que toda teoria conspiratória é apenas alucinatória ou paranoica -- exceto, é claro, ela mesma! Ela substitui aquele exercício intelectual pelo exercício emocional da prática de injúrias, preferencialmente contra mensageiros de teorias.

É uma teoria ingênua e preguiçosa, às vezes covarde, mas perfeitamente útil para manter seus adeptos dóceis ao que podemos chamar de "ditadura do mainstream" -- em certos contextos também conhecida como a do politicamente correto. Não é à toa, portanto, que essa teoria metaconspiratória é promovida no mainstream! Mas o Washington Post é um respeitável jornal, você diria, o que nos leva então ao restante da narrativa.

Ursos polares

A notícia em tela foi discutida numa lista sobre segurança na informática, onde a atribuição de autoria desse tipo de "roubo" foi questionada como açodada. Alguém então retrucou que o relatório no qual se baseou o Washington Post foi produzido pela Kaspersky, uma grande empresa russa de segurança digital, que inclusive já publicou vários relatórios similares. Para concluir, o comentarista gracejou: diante da complexidade em se atribuir autoria no domínio cibernético, se não foram os russos, então foram ursos polares.

Esse gracejo mostra como funciona a teoria metaconspiratória na prática. Ali, ridicularizando-se o senso crítico manifesto na forma natural de se investigar crimes, que o direito romano resumiu na expressão "cui bono?" Washington Post citando a Kaspersky para incriminar russos? Isso convida o senso crítico a ir além da manchete pautada. Então, nos detalhes da matéria, os tais truques se revelam. E o leitor que prosseguir poderá examinar alguns desses detalhes:
De noite, todas as teorias são pardas

A discussão naquela lista prosseguiu, com o reconhecimento de que certas operações de ciber-espionagem vêm, de fato, sendo terceirizadas para grupos independentes. Mas o gracioso comentarista prosseguiu, agora opinando que, em última instância, quem não tem condições de contra-espionar fica mesmo dependente de atribuições que são mercadejadas. Seja pela Kaspersky, pela CrowdStrike ou por ursos polares.

Em última instância, o ponto principal ali me pareceu outro. Subjacente a debates como aquele, há sempre alguma ignorância impĺícita que facilita a prática reativa de se atacar qualquer crítica sobre explicações oficiais ou politicamente corretas. No caso em tela, por exemplo, ignorância de natureza geográfica e cultural, em tempos ruços de demonização oficial da Rússia e dos russos.

Geógrafos e liinguistas estimam que o idioma russo é hoje falado por cerca de 260 milhões de pessoas, enquanto a população da Rússia é de aproximadamente 145 milhões. Existem portanto aproximadamente 115 milhões de pessoas no mundo que são fluentes no idioma russo e que não são nem cidadãos, nem residentes da federação russa, nem funcionários de suas instituições.

A questão a assomar aí é sobre o tipo de ignorância -- seja ingênua ou proposital -- que pode fazer vítimas inocentes em meticulosas operações psicológicas pro-hegemônicas. A ponto de levar pessoas inteligentes, até em ambientes intelectualmente refinados, a confundirem poliglotas ucranianos ou poloneses ou georgianos ou búlgaros ou hungaros ou kazaques ou do escambau, migrantes ou não, com ursos polares.



Autor
Pedro Antônio Dourado de Rezende é matemático, professor de Ciência da Computação na Universidade de Brasília, Coordenador do Programa de Extensão em Criptografia e Segurança Computacional da UnB, ex-representante da sociedade civil no Comitê Gestor da Infra-estrutura de Chaves Públicas brasileira e ex-conselheiro da Free Software Foundation América Latina. (www.cic.unb.br/~rezende/sd.php)
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