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Hailstorm, a força do Grande Irmão

Microsoft dá os primeiros passos rumo à plataforma que pretende integrar todos os internautas ao mundo de Bill Gates

Capa do caderno "Internet" do Jornal do Brasil de 7/06/2001

MARCELO NÓBREGA
Repórter do Jornal do Brasil


   Os estilhaços de um novo petardo da Microsoft começam a machucar. O governo da Grã-Bretanha, que encarregou a empresa americana da construir seu novo portal nacional www.gateway.gov.uk - lançado esta semana com a promessa de integrar 700 repartições até 2005 - sofreu duras críticas da imprensa local por um detalhe: só usuários do Internet Explorer 5 (da Microsoft) podem usar os serviços em sua plenitude. Micreiros com Netscape, Opera, Linux e Mac ficaram de fora. O site é, até o momento, a maior aplicação do HailStorm (ou tempestade de granizo), a mais nova ''revolução'' da megacorporação de Bill Gates.

Trata-se do seguinte: imagine que você decida programar suas férias numa agência de turismo virtual. Entrando com uma senha, o site reconhecerá sua identidade e, automaticamente, suas preferências, oferecendo o hotel ideal, o carro de aluguel de sua marca preferida, passeios e restaurantes favoritos. Tudo pago com seu cartão de crédito, na melhor data de cobrança, é claro. Isso tudo sem sair da mesma homepage e com apenas meia dúzia de cliques do mouse.

Para que seus gostos e suas preferências sejam entendidos pelo programa, o internauta tem que estar cadastrado no Passport {www.passport.com}, uma credencial virtual, parte vital do HailStorm, que registra os hábitos do cidadão. Do time de futebol que torce ao número da conta bancária e do cartão de crédito, tudo está lá, guardado para servi-lo melhor. Você é o que você gosta e, principalmente, o que consome.

''Nosso objetivo é ter cada internauta do mundo com uma identidade Passport'', revelou o cada vez mais ambicioso Mr. William H. Gates III em março, ao apresentar HailStorm, a superestrutura que vai realizar a integração da agência de turismo com a locadora de automóveis, o restaurante, a promotora de passeios, a empresa de cartão de crédito. E você, é claro, e de qualquer lugar, já que será possível acessar a página por palmtop, computador, celular, relógio ou o que mais a criatividade e a tecnologia permitirem.

O Passport já existe, em pequena escala. Usuários do webmail da Microsoft, o Hotmail, já estão cadastrados e têm uma amostra dessa integração com outros serviços da empresa: calendário, álbum de fotos, mensageiro instantâneo são alguns exemplos. Com o HailStorm a coisa fica séria, pavimentando a estrada para que outras empresas possam entrar e ampliar os serviços infinitamente.

A empreitada significa também uma virada radical nos objetivos da Microsoft. A maior e mais silenciosa revolução da internet pode transformar a rede definitivamente no quintal da gigante de Redmond.

Não é de estranhar. De tempos em tempos, a Microsoft, maior empresa de software do mundo, surge com um novo paradigma. Os sistemas operacionais DOS e Windows, o navegador Internet Explorer (a partir da versão 4) e o vindouro console XBox se encaixam na categoria de novos paradigmas. O que pode parecer inovador, no entanto, é geralmente classificado como plágio de outros produtos - no caso do DOS, copiado da IBM, e do Windows, da Apple - mas é a porção marqueteira de Gates e de sua empresa que fala mais alto, e contribui muito para o sucesso de suas empreitadas.

Sem o HailStorm, que é invisível para o internauta, será impossível pôr em prática o sonho de Gates. Ele é fundamentado em dois padrões da internet, que o tornam completamente apto a funcionar em qualquer aparelho ou programa:

XML, ou eXtensible Markup Language - uma linguagem que aperfeiçoa o HTML (HyperText Markup Language, a linguagem na qual as páginas na internet são escritas), que permite a definição do conteúdo num padrão que possa ser trocado e lido por qualquer lugar ou sistema. No nosso exemplo, o hotel, a empresa aérea, o restaurante etc. Mas também por ''coisas'' como geladeiras e microondas;

SOAP, ou Simple Object Access Protocol - um protocolo que vai fazer com que o usuário se comunique em qualquer sistema operacional, seja de um computador, de um handheld ou de um celular.

Com o HailStorm, a Microsoft pode repetir a experiência do sistema operacional MS-DOS, de 1981, até hoje parte essencial do Windows: a empresa cria e divulga uma base, deixando que outros desenvolvedores produzam sobre e para ela. Há um custo, é claro, de suporte e licenciamento. O HailStorm é o encanamento do comércio eletrônico, transformado em web services, sua versão 2.0.

Ideologicamente, a aposta coloca em prática a mudança de paradigma do mercado de software. Os programas não serão mais vistos como produtos, mas como serviço. O consumidor não será mais dono de um software na caixa, mas da senha que dará acesso ao seu uso, num servidor da empresa, por período determinado.

Em aplicativos pesados como Windows ou Office, é necessário mais do que o HailStorm - uma conexão rápida com a internet para acessar o Word num servidor distante é essencial. Mas, para comprar ingressos de cinema, programar a revisão do carro ou planejar a viagem de férias, o futuro está bem mais próximo.

Para a Microsoft, o HailStorm insere a empresa em nichos ainda não conquistados, como handhelds, celulares, videogames e, principalmente, os programas dos concorrentes. ''A plataforma HailStorm usa um modelo de acesso aberto, e qualquer linguagem de programação, sistema operacional, computador pode usá-lo'', diz a definição do produto.

Linux, Apple, Oracle, Sun, concorrentes em geral preparem-se: a Microsoft acaba de descobrir que, se não é possível aniquilar o Java, o Linux ou o novo Mac OS, pode juntar-se a eles, criando algo que lhes seja indispensável no futuro. Descentralizar para conquistar, seria o mote de Bill Gates para o século 21.

É claro que a empresa não vai parar com um trabalho de 25 anos - exemplos são o Windows XP, o Stinger (sistema operacional para aparelhos de pequeno poder de processamento) e o superlançamento, em novembro, do console XBox, num terreno ainda não explorado pela empresa. O HailStorm surge para costurar todos os aparelhos e aplicativos entre si, e minar a concorrência oferecendo o produto mais importante do momento: comunicação.

Para aderir ao sistema, empresas e usuários terão que confiar irrestritamente na Microsoft, codinome Passport. Ele é a parte visível do HailStorm, o portão de entrada para o mundo mágico da integração de serviços via internet - ou melhor, via Microsoft. Se a iniciativa de Gates e sua empresa der certo, o Passport será, em breve, o maior centro de autenticação, e banco de dados já criado. Um internauta não-cadastrado nele será um internauta fora da internet, sem a liberdade que encontra hoje para navegar. Pelo menos na opinião da Microsoft e de seus parceiros - eBay e American Express, os primeiros, já estão ''hailstormizados'' -, que consideram o sistema o mais seguro e interessante para a próxima geração de serviços via web.

Ao mesmo tempo em que cria a plataforma para pôr ordem na casa das pontocom, a Microsoft empurra o funil chamado Passport, que vai armazenar dados pessoais e todas as transações que passarem pelo HailStorm.

O governo britânico já fez sua aposta, e entregou toda a burocracia da velha Albion nas mãos da empresa. Sobre o acesso negado a navegadores que não o da ''casa'', a Microsoft alega que o problema está apenas ''na certificação digital de segurança do site'', que só suportaria versões mais recentes. Há outras alternativas, universais, que poderiam ser usadas, como explica artigo na revista LinuxUser www.linuxuser.co.uk/articles/issue11/gateway.html.

De qualquer forma, fica a dúvida se no futuro o gargalo Passport incluirá a condição ''Internet Explorer''. E mais: estariam organizações e governos dispostos a entregar o tráfego de seus dados a uma única empresa privada? Se é por falta de escolha, empresas como AOL (com seu AOL Anywhere) e HP www.hphighway.com.br/eservices também têm suas propostas universalizantes.

A Microsoft sai na frente, ajudada pela aceitação mundial e suas parcerias - além das 130 milhões de contas Passport já existentes. Mas não é por falta de aviso que internautas e empresas devem observar com cuidado a oferta de um adorável mundo fácil controlado pelas iniciais MS. Scott McNealy, presidente da Sun, definiu seu ponto de vista sobre a gigante de Redmond numa entrevista à Wired. ''A primeira dose de heroína é sempre grátis - a Microsoft quer integrar, mas não deixa ser integrada.'' E continua: ''O uso de um produto da Microsoft o prende sempre à necessidade de outros, e outros.'' Quem usa computador sabe.

   A reação dos concorrentes

   Preocupado com a presença maciça da Microsoft no mercado americano de software, o Departamento de Justiça dos Estados Unidos abriu processo contra a empresa em 20 de outubro de 1997, sob a acusação de práticas monopolistas. Assinaram a ação os governos de 19 estados americanos. Juntaram-se aos esforços anti-Microsoft alguns de seus arqui-rivais, como Oracle, Sun Microsystems, Netscape e AOL Time Warner.

Em 8 de dezembro, o juiz Thomas Penfield Jackson, de Washington, ordenou que a empresa separasse seu navegador de internet, o Internet Explorer, do sistema operacional Windows. Os recursos sucessivos dos advogados de Bill Gates arrastaram o processo. Em 28 de abril de 2000, o governo dos EUA pediu a divisão da Microsoft em duas empresas; uma produzindo o Office e o Explorer, outra o Windows. O juiz acabou determinando o esquartejamento da empresa.

A Microsoft obviamente apelou ao Tribunal de Recursos. As alegações finais de ambas as partes foram entregues em janeiro, e lidas em audiência de dois dias no fim de fevereiro. Aguarda-se uma decisão favorável à Microsoft, porque os magistrados que compõem o tribunal se mostraram simpáticos à empresa depois que a defesa alegou que a sentença do juiz Jackson estaria sob suspeição, graças aos comentários que ele fez na imprensa contra a Microsoft.

Se os concorrentes conseguiram surpreender a Microsoft em 1997 mobilizando facilmente o governo contra a empresa, agora Bill Gates e companhia estão preparados: lobistas de discurso bem-azeitado foram instalados em Washington, e rechaçam com rapidez e eficiência qualquer acusação de monopólio. As mais recentes apontaram para o Pocket PC, o sistema para portáteis da Microsoft que tirou a liderança mundial da Palm, e para a .NET, plataforma integradora dos programas da empresa.