http://www.cic.unb.br/~rezende/sd.htm | Software livre: Microsoft Linux?

Microsoft Linux. Será?

Prof. Pedro Antonio Dourado de Rezende
Departamento de Ciência da Computação
Universidade de Brasília
19 de setembro de 2015



Uma matéria da revista Exame informava ontem que a Microsoft anunciou sua própria distribuição GNU/Linux. O Azure Cloud Switch, descrito pela empresa como um "sistema operacional modular multi-plataforma para redes de data center construído no Linux". O objetivo é usá-lo na infraestrutura de redes de companhias de grande porte. No blog oficial da empresa, a arquiteta principal da Azure Networking destaca como característica da nova distribuição a de "permitir depurar, corrigir e testar erros de software de maneira muito mais rápida".

Numa lista de discussão, alguém observou que a renda da empresa vem cada vez mais da hospedagem de sistemas nos seus data centers (plataforma azure), onde já existiam máquinas com Linux antes. Mas como nesse mercado eles competem atrás do Amazon Web Services, precisam oferecer alguma coisa que os diferencie. Então, cabe perguntar: será que esse linux vai ser lançado no mercado para usuários "comuns"?

Quando alguém mostra algum ceticismo acerca das possíveis intenções dessa empresa com o ecossistema de desenvolvimento colaborativo e licenciamento permissivo do software livre, é geralmente rotulado de anti-microsoft. No fundo, ninguém consegue impedir que usuários de TI sejam benevolentes ou complacentes com sua fornecedora de softwares favorita.

Doutro lado, à parte as preferências individuais, a tática de se confundir deliberadamente posições pró-software livre com posições anti-monopolismo, em qualquer que seja o nicho da área de TI, pode ser eficaz para justificar tendências ao menor esforço de usuários e consumidores, mas é contraproducente para se entender as consequências -- inclusive na (in)eficácia do Estado de Direito -- da prática monopolista consentida e fetichizada nessa área.

Por exemplo: a dita empresa pode até encenar onerosas poses em defesa de direitos de seu consumidores, como nessa matéria do portal ZDNet; mas, no tabuleiro geopolítico em que a TI é campo de guerra (e onde o nome do jogo é controle), quem acha que essa empresa seria assim alvejada se não fosse por sua posição de mercado e de práticas contratuais?

Competitividade no segmento SaaS (Software as a Service) ajuda, mas o nome do jogo é controle. O futuro da empresa é guiado e está protegido pelos projetos de instrumentação do regime de vigilantismo global para os quais sua posição de mercado é fundamental, tais como o projeto PRISM.



Autor
Pedro Antônio Dourado de Rezende é matemático, professor de Ciência da Computação na Universidade de Brasília, Coordenador do Programa de Extensão em Criptografia e Segurança Computacional da UnB, ex-representante da sociedade civil no Comitê Gestor da Infra-estrutura de Chaves Públicas brasileira e ex-conselheiro da Free Software Foundation América Latina. (www.cic.unb.br/~rezende/sd.php)
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