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Sobre a Smartmatic em Eleições Brasileiras


Prof. Pedro Antonio Dourado de Rezende
Departamento de Ciência da Computação
Universidade de Brasília
abril de 2015

 


Introdução

Um mês após a eleição presidencial de 2014, começaram a circular pela Internet boatos sobre uma empresa estrangeira que estaria atuando na eleição brasileira de 2014 como front de um complô cubano-venezuelano para sabotar democracias e implementar o comunismo na América Latina. Até em lista de discussão sobre segurança computacional eles foram postados. Inclusive travestidos de notícia com viés claramente alarmista, como esta intitulada " EUA podem endossar oficialmente tese de fraude eletrônica nas nossas eleições 2014", onde a suposta fraude teria sido praticada pela empresa Smartmatic.

Uma pesquisa no âmbito do CMInd indicava que tal empresa havia sido fundada em 2006 por membros da oposição venezuelana, como front para agencias de três letras fraudarem eleições contra o Chavismo, mas, como as urnas lá precisam ser de 2ª geração, e a auditoria por voto impresso atingiu já em 2006 recontagem de 53% das urnas, não puderam executar com sucesso a operação. Mas que teriam tentado, está sinalizado no fato da empresa ter sido descredenciada para atuar naquele país desde pelo menos 2009, como mostra consulta ao registro oficial venezuelano equivalente ao nosso CNPJ.

O "plano B" então parece ter sido a reengenharia da empresa, que a transformaria em multinacional da votação eletrônica para atuar em países com sistemas de votação obscurantistas, como o Brasil e as Filipinas por exemplo, quando sua ação clandestina interessar aos gestores de agências de três letras que a sustentam. Inclusive até em psyops de bandeira falsa, como indica esta avaliação. A "notícia" acima me parece isso: preparação de um ataque midiático de bandeira falsa, para o golpismo neoliberal das "revoluções coloridas" atacar mais um dos países do grupo BRICS. Aqui, com os carlos lacerdas da vez a serviço dos interesses do império da vez.

Isso lhe parece confuso?

Ao expor tal avaliação na lista onde a referida "notícia" havia sido postada, fui acusado de parecer confuso. Tendo antes postado, por várias vezes, argumentos profusos sobre como e porque o "nosso" sistema de votação -- de 1ª geração -- pode ser invisivelmente fraudado, agora estaria tentando convencer o queixoso (e demais leitores) de que "qualquer acusação de fraude é incorreta. Tudo obra do império americano, mas, certamente, nada vindo do lado oposto." Seria isso mesmo?

Talvez para quem conhece minha posição sobre nosso sistema de votação, mas tenha passado batido pelos links sobre 'Smartmatic' que substanciavam minha exposição sobre a citada "notícia", pode até parecer que minhas opiniões sobre o tema sejam tendenciosas, e por isso duvidosas. Então este artigo, em forma de quase debate, com o intuito de dissipar esse tipo de confusão, passível de surgir em quem acompanha o assunto somente por manchetes ou com leituras diagonais, no que se refere a minha posição relativa à eleição de 2014 (e o PT, e o comunismo, etc). Confusão que começa com generalizações infundadas, principalmente as induzidas pelas manchetes, e se expandem pela falta de isenção e/ou de base técnica para entendimento na leitura de críticas como as que escrevo a respeito.

Comecemos pelas falhas de raciocínio na primeira alegação daquela queixa, de que estou agora querendo "convencer[-los] de que qualquer acusação de fraude [em eleição eletrônica brasileira] é incorreta, e tudo é obra do império americano." Tudo? Eu supus, inicialmente, que todos naquela lista sobre segurança deveriam saber que quem nos meteu na nossa última guerra com país vizinho, para trucidar seu "ditador", guerra que só produziu destruição e dívidas, foi o império britânico -- que aliás financiou os dois lados --, e não o império americano. Sim, estive antes querendo convencer a todos, mas convencê-los de que qualquer acusação [de fraude eleitoral no Brasil após 2000] é inverificável, e não que é incorreta. Nunca disse, nem ali nem alhures, que uma ou outra denúncia de fraude fosse "incorreta"; e inverificável não é sinônimo de incorreta.

O que disse ser incorreto é outra coisa. Disse, em várias ocasiões, que o modelo de segurança do "nosso" sistema de votação é incorreto sob a perspectiva de quem acredita em democracia e queira eleições limpas; E sobre a obra do império da vez -- agora o americano -- referente a tal modelo (bem como ao do sistema de votação em uso na Venezuela), o que disse foi apresentado, a convite, em um congresso internacional no México em 2007 (com versão espanhol traduzida por uma ong argentina), e depois como tese sobre referencial hermenêutico, também a convite, em outro congresso internacional no Peru em 2012.

Interpretações para todo gosto

Todos têm o direito de interpretar meu desejo de convencê-los de que a denúncia específica naquela supracitada "notícia" é incorreta, mas apenas em sentido alegórico, de que tal denúncia não passa no teste "do cheiro", ou seja, no teste de plausibilidade mais elementar em situações de inverificabilidade investigatória, que é o teste da consistência. Onde cabe a pergunta: de onde pode vir o raciocínio da citada queixa, de que eu estaria agora "defendendo" que esse teste daria o mesmo resultado com qualquer denúncia (sobre irregularidade em votações)? A denúncia específica em tela não passa nesse teste por motivos que apresentei nos links e na análise acima, mas não consigo acompanhar o raciocínio que me atribui estar insinuando tão banal generalização. Isto me parece uma mera tentativa de gerar contrainformação.

Digo isto porque quem seguir o último link no material apontado acima (em "links sobre 'Smartmatic'"), teria, sim, me visto criticar algo "vindo do lado oposto". Teria visto que, ao aplicarmos o teste do cheiro na supracitada "notícia" (assim que a mesma começou a circular), descobrimos que a Smartmatic já tinha contrato para transmissão de dados da votação em 2012, e que alguém de sobrenome Haddad, com participação acionária de 0,00001% e endereço paulistano, é quem respondia pela subsidiária brasileira da Smartmatic em contrato com o TSE. E que suspeitas de fraude praticadas durante a transmissão de dados naquela eleição, a de 2012, já haviam sido denunciadas e analisadas a partir de dezembro de 2012, com blackout total da mídia corporativa, até hoje.

Essa aplicação do teste do cheiro se completa com a pergunta: Com que se ocupavam esses paus-mandados que agora escrevem e falam na blogosfera e na mídia corporativa sobre fraude no segundo turno de 2014, enquanto fazíamos essas denúncias a partir 2012 (antes mesmo da Smartmatic ser "farejada" no Brasil) ou enquanto fazíamos denúncias de risco de fraude no primeiro turno de 2014? Ou será que a tunga no Celso Russomano em 2012, e na Marina Silva em primeiro turno de 2014, faziam parte de algum acordo, cuja versão 2014 naufragou no segundo turno, hipótese que analisei em matéria publicada em vários portais alternativos (também linkada em resposta ao queixoso), e que é consistente com a hipótese de essa acusação da vez fazer parte de um plano B, hoje sendo testada nas ruas?

Críticas onde couber

Quem não encontrar em meus escritos o que lhe é desejado, paciência. Toda denúncia sobre votação nesse sistema é inverificável, e como pesquisador na área desenvolvi meus próprios critérios para avaliar plausibilidade, que uso para escolher como e sobre o que comentar publicamente. Mas isso não os autoriza a me imputarem generalizações descabidas.

Estou nisso há 14 anos. Minhas críticas à contribuição do PT para consolidação desse modelo de segurança na votação eletrônica começaram em 2002. Já me encontrei com chefes políticos de praticamente todos as correntes partidárias e todas as funções judicativas (presidente do TSE e da OAB, procuradora geral eleitoral e vice-procuradores gerais do MPF), bem como ativistas de praticamente todos as linhas de atuação relacionadas à nossa democracia. Nesse périplo, nunca encontrei entre eles, à exceção de Leonel Brizola, ninguém que desse bola para o que dizíamos -- que com essa informatização nosso sistema de votação se tornou infiscalizável, e que, portanto, tudo poderia vir a acontecer, inclusive guerra de fraudes e indústria de boatos sobre fraudes.

No fim, percebi que, quando me davam atenção, era para saber até onde eu sabia. Em retrospectiva, percebi também que, para quem almeja cargos eletivos por motivos pessoais, é mais lógico participar de arranjos obscuros com certas pessoas envolvidas em processos inverificáveis de votação, do que botar seu próprio dinheiro ou seu crédito na loteria de uma campanha eleitoral competindo nessas circunstâncias. E isso me levou à conclusão final, de que esse modelo de segurança incorreto contribuiu para adoecer nossa democracia, ou para agravar sua doença, que reputo fatal.

Percebo ainda que essa tendência, a da apropriação do controle tecnológico para empoderamentos subterrâneos, se alastra para toda prática social informatizável, por todo canto. Tudo conducente ao surgimento de um governo supranacional, tirânico e global, que antecederá a segunda vinda do nosso Senhor Jesus Cristo. Maranata.



  • Revisão ortográfica em 12.06.2016. Atualização de Conteúdo em 12.06.2016:
    Recentemente a Smartmatic passou a ser controlada pelo globalista financeiro George Soros, com planos de ação que incluem as eleições 2016 nos EUA
  • Autor

    Pedro Antonio Dourado de Rezende é professor concursado no Departamento de Ciência da Com­putação da Universidade de Brasília. Advanced to Candidacy a PhD pela Universidade da Cali­fornia em Berkeley. Membro do Conselho do Ins­tituto Brasileiro de Política e Direito de In­formática, ex-membro do Conselho da Fundação Softwa­re Li­vre América Latina, e do Comitê Gestor da Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira (ICP-BR), en­tre junho de 2003 e fevereiro de 2006, como representante da Sociedade Civil. http://www.­cic.unb.br/~rezende/sd.php

    Direitos do Autor

    Pedro A D Rezende, 2015: Este artigo é publicado no portal do autor sob a licença disponível em http://creativecommons.org/licenses/by-nc/2.5/br