http://www.cic.unb.br/~rezende/sd.htm > custo social: violência

Reflexões sobre Segurança e Violência

Estimulado por discussões em aula, o professor enviou à turma de Segurança de Dados do 1/99 suas relexões sobre o tema, solicitando comentários. Sua mensagem e algumas respostas são aqui listadas.



Caros Alunos,

Desejo oferecer-lhes uma pequena reflexão sobre o contexto em que se forma a interface entre segurança computacional e o mundo da vida (assunto pertinente ao primeiro trabalho do curso), inspirado nos comentarios ventilados em aula acerca da quadrilha de policiais de uma delegacia de roubos e furtos em Pernambuco que vendiam carros roubados, onde policiais compartilhavam uma senha de acesso ao RENAVAN (cadastro nacional de veiculos roubados), e em outros acontecimentos recentes. 

Peço que sejam coniventes comigo se lhes pareço com isso provocador, pedante, ou falso moralista. Estou disposto a correr o risco de permitir esta percepção, por que creio ser também importante o questionamento do assunto que estamos estudando na sua dimensão ética, se quisermos desenvolver uma opinião sensata e equilibrada sobre a importância da criptologia e das técnicas de segurança na -- e para a -- tecnologia da informação. 

Quero refletir sobre por que nos parece engraçado quando alguem diz que uma investigação computacional deve -- também -- valer-se da porrada para obter confissões, quando os logs falham. Entendo que a graça pode estar na percepção de não haver muito sentido em preocupar-se com formalismos e filigranas de uma política de segurança computacional, quando o homem dispõe de um método muito mais direto, testado desde a pré-história, e eficaz, pricipalmente em terra sem lei, para exercer seu poder. 

Neste nosso novo mundo, que Pierre Levy tão habilmente descreve, vemos nossos conceitos e valores serem invocados para guiar nossa conduta em situações inusitadas, onde nem sempre está clara sua aplicabilidade. Sei, por exemplo, que é pouco ético entrar na casa dos outros sem ser convidado -- o que não seria o caso se fosse em seu escritório ou loja. Mas seria imoral invadir as redes dos outros? por que? A aplicabilidade dos nossos valores e conceitos torna-se difusa, pois ainda não amadurecemos os novos conceitos e valores de que carecemos, o que por outro lado contribui para dissolver a identidade e a força dos valores e conceitos que ainda tínhamos. 

Vejo como consequencia perigosa do diluvio de informações em que estamos mergulhados, a banalização de nossos valores. Quanto mais "real" parece a violência simulada nas telas de um videogame ou na animação dos filmes de um grande estúdio, maior o deleite de quem com isso se excita, enquanto mais proximo ficam as cenas trágicas reais das imagens de fantasia. Outra banalização mercadologica e marqueteira quer nos fazer crer que o desejo ou curiosidade ou preferência da maioria, por este e outros tipos de excitação ou de conveniência, constitui sansão democrática e aval cultural à perpetuação de nossa crescente exposição coletiva ao risco de sermos objetos ou agentes, involuntarios, indiretos ou cooptados, dessas fantasias. 

Desumanizar os riscos de suas ações é o primeiro passo de quem mergulha na confusão dos valores virtuais. Os imberbes rambos da escola de Denver, cuja confusão é analisada pelo mediador da lista Politech na msg que lhes enviei, mencionam em testemunho a vingança pela rejeição social, como valor máximo em seu último jogo secreto. Não lhes ocorreu que juízo coletivo algum pode substituir a responsabilidade pessoal do homem por seus proprios atos, perante si mesmo. Não poderia ter-lhes ocorrido, pois o "perante si mesmo" daqueles garotos fora dissolvido, ao vulgarizarem suas vidas confundindo-as com uma partida de videogame. Como a de muitos está sendo, na rua, nos escritórios, na rede, nos morros, nos cassinos das bolsas de valores, de empregos, de mercadorias, etc, onde quer que os valores da vida estejam sendo dessacralizados pela ilusão da autosuficiência. 

O policial pernambucano cadastrado no RENAVAN, ou quem por ele operava, percebeu a desconexão entre sua responsabilidade formal com o banco de dados e o mundo da vida, por não ter sido vinculado a nenhum termo de compromisso de sigilo da senha de acesso. Sentiu-se livre para descartar seu "perante si mesmo" e o fez, não podendo ser atingido pela esfera do direito penal devido a este ato específico, como também não mais as capas pretas de Denver. A responsabilidade pelo ato de cadastramento de usuário num banco de dados sensível é tambem pessoal, mas do seu administrador, e não há tecnologia, criptografia, ou porrada que possa atingir esta mensagem do mundo da vida sobre responabilização, nem mesmo o descarte do "perante si mesmo" do administrador de um banco de dados. 

A lógica da porrada para identificar a interface da quadrilha com o banco de dados é semelhante à do presidente da "National Rifle Association" Americana, Charlton Heston. Ele disse, em entrevista sobre o episódio da escola de Denver, que se houvesse gente armada dentro da escola, o episódio não teria ocorrido. Esta lógica serve à banalização da violência. 

No caso da policia de Pernambuco, creio ser caminho mais fácil e -- talvez mais importante -- menos perigoso, embora mais sinuoso, pegar a quadrilha por enriquecimento ilícito ou sonegação de impostos. A escolha de critérios de ação subentende escolhas morais. Os assaltantes de banco têm como valor supremo na escolha da profissão, a eficácia e rapidez de resultados: nenhuma prestação de serviço oferece pagamento mais imediato e garantido do que o assalto, se corretamente especificado e executado. Portanto o critério da eficácia nem sempre é socialmente sancionado como valor máximo. 

Estou curioso para saber que tipo de lógica prevalece nos julgamentos que poderão advir da CPI do sitema  financeiro, que também tange essa discussão de responsabilidades e riscos na manipulação de informação, de responsabilidades pela avaliação de riscos, e assim por diante. Há ali valores em jogo suficientes para tornar quase impossível a convergência de um juízo sem a banalização de pelo menos um deles. 

O caminho da evolução intelectual do homem é tortuoso e cheio de sobressaltos. Luta-se e morre-se por ideais, onde muita chance de retrocesso existe se o caminho da evolução moral não for trilhado junto. Ao domar as forças da natureza, o poder que daí obteve desafia o ser humano a abdicar-se da violência, pelos crescentes riscos decorrentes da responsabilidade como co-autor de seu próprio mundo. 

Espero que o episódio de Denver tenha nos ajudado, com uma metáfora útil, a refletir sobre a questão da responsabilização no acesso a banco de dados sensiveis. Espero também que a CPI dos sistema financeiro nos forneça novos elementos de discussão. 

Comentários? 

 

Clóvis Freire Jr comenta: 

Caro Prof. Pedro, 

A mensagem recebida gerou bons momentos de reflexão sobre os temas abordados, e eu gostaria agora de participar ao senhor algumas conclusões a que cheguei. 

Nos dois casos, "capa-preta" e RENAVAN, percebe-se que as fronteiras entre os "dois mundos" não estava bem delineadas para os participantes dos dois epsódios. E realmente quem sabe qual é a fronteira? 

No caso "capa-preta", os adolecentes "entraram" na realidade atualizada (conforme descreve Pierre Levy) pelo virtual.  Durante os jogos , com suas grandes possibilidades de interação, o participante , acredito eu, entra em um estado de imersão em uma realidade,e deve atingir algum estado alterado de consciência, onde os valores morais de nossa sociedade são muitas vezes quebrados. O "prazer"  de agir contra as regras estabelecidas é viabilizado pelos jogos, se isso é válido ou não , não gostaria aqui de entrar no mérito. 

O caso é que os adolecentes "atualizaram" uma realidade e não emergiram de seu mundo amoral, trazendo para o mundo "real" de valores morais , seus valores amorais. Eles agiram de acordo com valores válidos , só que em outra "realidade". 

A interface entre os "dois mundos" não foi estabelecida da forma como a nossa sociedade espera. Esperamos que a moral seja universal. No entanto esquecemos que ela  é temporal , ocasionalmente local, e que toda totalização de uma moral nos pareceria ditatorial. 
Esperamos que os valores morais de nossa sociedade sejam válidos em todos os lugares , inclusive na "atualização" de uma realidade virtual no Ciberespaço. 

Não foi como os "capa-preta" pensaram.... 

No caso RENAVAN , os personagens também não agiram conforme a sociedade espera, eles separaram  a moral do mundo "real", da moral do mundo "virtual" (pelo menos argumentaram dessa forma para não sofrerem o peso da lei). 

Assim , a sociedade espera que a relação entre os dois mundos , no que diz respeito a moral e a ética seja  no sentido mundo "real"  ---> mundo "virtual". Mas , a moral , por mais que seja universal , varia de pessoa para pessoa , um ato meu pode ser moralmente condenável pela sociedade apesar de realizado por uma grande parcela desta (A pirataria de software por exemplo...). 

A interface ótima entre os dois mundos é difícil de atingir , pois depende de um fator aleatório (o homem). 

Podemos buscar então a interface socialmente aceita. Estabelecer regras, procedimentos que permitam que os valores do mundo "real" sejam levados ao mundo "virtual". 

Como fazer isso? 

Buscamos usar as mesmas regras do mundo "real" no mundo "virtual". Tentamos materializar suficientemente as relações quando queremos nos certificar de com quem estamos falando (como se através de um certificado digital tivessemos a mesma garantia de um cartório do mundo "real"), tentamos fechar as portas para os inimigos e permitir a passagem dos amigos (firewalls), tentamos  fazer com que seja possível rastrear os passos de uma pessoa no "virtual" da mesma forma de como é feita no mundo "real" . 
 De certa forma, os métodos de controle de acesso por meio de atributos biológicos (impressão digital, retina,...) são uma tentativa de personificar o indivíduo dentro do "virtual", quase como se a pessoa fosse materializada no "virtual". Tanto é que , como citado hoje em sala, se alguém alterar tais registros, a pessoa perderá sua identidade não só no mundo "virtual" mas também no "real". 

Ou seja , uma ação realizada no sentido real ---> virtual (levar os valores de reconhecimento de pessoas para controlar o acesso do "real" para o "virtual") gera uma reação no sentido inverso real <------virtual (os valores do "virtual" são aceitos como valores do "real"). 

A questão é ampla e é nesta amplidão que está inserida a segurança computacional. Que valores são válidos? como implementar no "virtual" o que é socialmente aceitável no "real"? 

espero ter colocado minhas idéias da forma mais clara possível, em todo caso , vou desenvolvê-las melhor no primeiro trabalho. 

Clóvis Freire Jr


Bibliografia


Editado por Pedro Rezende. Atualizado em Março de 2000.