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Debate sobre Snowden,
suas Denúncias e Consequências

Prof. Pedro Antonio Dourado de Rezende
Departamento de Ciência da Computação
Universidade deBrasília
Julho de 2013


Entre 12 de junho e 17 de julho de 2013, o autor(-editor) e outros mantiveram numa lista de correio eletrônico diálogos sobre o tema no título. Esta publicação, em forma de debate, teve a anuência dos participantes. Alguma edição foi necessária para se respeitar e preservar a privacidade da lista, que é fechada. Nos emails replicados abaixo, portanto, [texto entre colchetes ] são insertos que visam tão somente a preservar o sentido original do conteúdo autorizado, e elipses ... são supressões convenientes a esta edição. Ao final, uma homenagem ao iniciador do debate.



email 1:

Alberto Fabiano: ...Assim, tenho certeza que logo surgirão panacéias tecnológicas como solução de privacidade... que poderá gerar uma meia dúzia de produtos interessantes, mas logo o assunto cairá no esquecimento e será lembrado apenas pelos fissurados em teorias conspiratórias, techno-thrillers e roteiros de ficção. O assunto merece mais debate sério por vários aspectos, ele dará muita munição para a indústria de segurança da informação e de internet hosting services mas a chance dele gerar mais barulho que solução é gigante, principalmente nos dias atuais.


Pedro Rezende: Curioso. A grita geral sobre espionagem industrial correndo solta, assunto que dominava as discussões de segurança computacional antes do PRISM atingir o ventilador, era também barulho de fissurados paranóicos? De qualquer forma -- antes e depois -- esse "barulho" tem valor semiológico, pois, para serem eficazes, conspirações precisam parecer apenas meras teorias conspiratórias; enquanto claro está, desde Maquiavel, que fazer política é a arte de conspirar, conforme o dicionário descreve o significado do termo.

A reação visceral de atirar no mensageiro, explicita na manifestação de profissionais da TI que podem intuir abalos em seus próprios modelos produtivos/negociais, ao por exemplo desqualificar análises sombrias ou céticas como "fissura" paranóica, se coaduna com a ingenua atitude dos que se orgulham em serem técnicos que menosprezam a política, adestrados que foram nisso, enquanto firma a trilha mais curta para a progressiva irrelevância de investimentos em técnicas e métodos de proteção virtual, sob métricas pragmáticas para sua relação custo/benefício.

A ciberguerra é uma forma contrarrevolução digital, cujo paradigma é "como pode ser a virtualização destrutível?" (bem ao gosto da ideologia neoliberal, como em Schumpeter). Nessa forma de leitura do evento PRISM-no-ventilador, prefiro ver um feedback da natureza humana na evolução da TI



email 2:

Alberto Fabiano: ...Prof. Pedro Rezende,

Gostei deste quadro evolutivo e deste paradigma, que já é atual a algum tempo. sobre a afirmação do "fissurado paranoico", saiba que apesar de sempre buscar construir a argumentação, seja por comprovação ou raciocínio lógico, de que prevenir ameaças não são paranoias e de sempre empregar a máxima de Tom Gilb: "If you don't actively attack the risks, they will actively attack you",

PR:  Caro Alberto

Reconheço o esmero com que voce tem aqui tecido e exposto seus argumentos, inclusive os referentes a teorias conspiratórias. Confesso que fiquei na dúvida, ao responder, se entendia sua menção aos "fissurados, techno-thrillers, roteiros de ficção" como trazendo intenção de conotar ironia, alguma forma de desabafo contra cluelessness, ou coisa do tipo. E fui na bola, ou mordisquei a "isca".

AF: ...visto esta carapuça do paranoico sempre que assim me classificam

PR: Idem, como aqui nesse thread. E quando a visto, fico à vontade para me divertir com uma idéia, digamos, pós-paranóica: a de uma meta-teoria das conspirações (que classifica teorias conspiratórias) onde haveria, entre os tipos, o das conspirações tácitas, nas quais distintos atores convergem estratégias, mesmo sem comunicação direta entre eles, por algum calculo inferencial ou intuitivo sobre uma "álgebra de interesses", a la teoria dos jogos. Um modelo mental, como vc diz, de que proteção melhor planejada pode ser mais eficaz.

AF: ...Talvez eu esteja levando muito a sério as máximas: "Security is a ilusion"  e "Paranoia  is our profession" mais do que eu deveria, por mais que eu tente construir os modelo mental de que proteção nunca é demais.

PR: Talvez sim, talvez não, acho que depende do observador e do contexto: tenho um colega que diz que Paranóia é variável oculta na equação de Eve Nemeth, segurança = 1/conveniência, e eu suspeito que ela seja aí não-linear, já que paranóia de menos produz manés, e paranóia de mais produz fricção excessiva.

AF: fico feliz que meu comentário tenha provocado seus insights, que são brilhantes e oferecem preciosas contribuições as discussões.

PR: Minha admiração e apreço pelas suas contribuições é máxima, e fico pois honrado com sua gentileza.

AF: sobre o atual momento, confesso que estou bem curioso para saber quais serão os reais desdobramentos que eles irão gerar.

PR: Idem. E aguardo com muita curiosidade seus próximos posts no tema.

    ... email 3:
Um desses desdobramentos pode ser a NSA deixar de participar do projeto Hadoop ou mudar a forma como colabora. Seria esse um interessante sinal de caso de "conspiração tácita" entre Big Business e Big Government, ao estilo da convergência descrita por Mussolini como essência do fascismo? Fissurados no estudo de teoria e prática conspiratórias aguardam. Sem esquecer.

    ... email 4:
Mais um sinal de que estamos tratando de um caso que poderíamos chamar de conspiração tácita: New York Times, June 19, 2013:
"Web’s Reach Binds NSA and Silicon Valley Leaders"

    ... email 5:
Primeira pergunta: se a primeira empresa no programa PRISM aderiu-o em 2008, qual teria sido o programa aderido antes de 2001? Vide o caso "NSAKEY". E antes de descartar a pergunta como mera teoria conspiracionista, relembre uma possível aplicação prática, no "Incidente em Alcântara".


 
email 6:

Roberto Barreto: ...Embora pese que existem limitações para o desenvolvimento de tecnologias críticas, como a do lançamento de foguetes, exemplificada inclusive na restrição de compra de equipamentos correlacionados, tenho uma enorme dificuldade para aceitar sequer a _hipótese_ de uma sabotagem com este grau de atuação.

PR: Temo que continuarás com sua enorme dificuldade, pois a pergunta central que faço no artigo citado na mensagem anterior (sobre o incidente em Alcantara em 2003), nunca foi respondida em público: Qual a plataforma de software sobre a qual rodavam os sistemas de controle de lançamento, no quarto acidente seguido?




email 7:

Evandro Hora:
De repente… o evento com o avião presidencial boliviano pode equivaler, pelo menos pictoricamente, ao não decaimento da substância radioativa… que não acionará o contador geiger, que não liberará o martelo, que não quebrará o frasco que aspergirá o veneno… acabando por propiciar um excelente motivo à Bolívia (que não descartou a concessão do asilo) para que acolha uma das instâncias da função de onda do Snowden?

PR: A analogia se amplia, pois ocasionalmente a função de onda Snowden tem colapsado em matéria observável. Como esta mais recente publicada na RT.

    ... email 8:
[Pode-se argumentar que Snowden não merece crédito porque é traidor, desequilibrado, aproveitador, oportunista, anormal, sem ética no trabalho, etc.]  Mas Snowden obviamente se sentiu traído primeiro, depois de se alistar e servir nas forças armadas do seu país, ele viu que a propaganda oficial era goebelliana. E traído junto com mais 300 milhões de compatriotas, de cérebros lavados pela mesma propaganda. E agora também traidor, por seguir sendo coagido a perpetuar a traição aos compatriotas, no seu trabalho diário. Só não entende isso quem não quer.

O tipo de anormalidade que leva alguém a fazer o que ele está fazendo é justamente a conduta do governo ao qual ele servia, conduta que ele agora denuncia: Perigosa, traiçoeira, aproveitadora e oportunista; mas, pior, com ambições hegemônicas e totalitaristas. Dizer que ele agiu por megalomania, por dinheiro, etc, não faz sentido pois todos sabem que seu mais provável destino] é fácil saber:  terror em vida, tortura e morte. Sobre ética, há uma da vida e outra no trabalho, cada um tem as suas. Os bandidos, sejam tatuados, engravatados ou fardados, também.



email 9:

Evandro Hora: "In the second part of an exclusive interview with Glenn Greenwald and Laura Poitras, former NSA contractor Edward Snowden contemplates the reaction from the US government to his revelations of top-secret documents regarding its spying operations on domestic and foreign internet traffic, email and phone use. This interview was recorded in Hong Kong on 6 June 2013."

PR: Para que ninguém deixe de entender sob pretexto de barreiras de idioma, ofereço uma edição traduzida e comentada da primeira parte da dita entrevista.

    ... email 10:
[Pode-se argumentar sobre a necessidade do vigilantismo pelo Estado, que sempre existiu e vão continuar existindo, etc, mas podemos compará-lo com] Doenças auto-imunes, também sempre existiram. E os organismos (biológicos ou sociais) sempre trataram disso, em tempos distintos de formas distintas: [Mais sobre isso nessa matéria do RT. Aceitar a tese de que Snowden não merece crédito porque está desequilibrado equivale a] entender que é a propaganda oficial sobre ou da NSA que merece crédito? Neste caso, o incompreensível deixa de ser a cabeça do Snowden, e passa a ser toda essa fúria persecutória contra o rapaz, arrastando com ela tantas crises diplomáticas. [Além os "erros" dessa propaganda, como na apresentação do Chefe do Departamento de Estado ao Conselho de Segurança da ONU sobre armas de destruição em massa no Iraque em 2003, etc.]



email 11:

Evandro Hora: Por este prisma (sem trocadilho) [referindo-se à pergunta no email 5], e levando em conta o axioma que propõe que "nenhum sistema é mais confiável que a infrasestrutura que o suporta", nem mesmo o Algoritmo de Estado como regulamentado pelo próprio GSI se manteria confiável, ou mesmo minimamente operacional, pois sempre cabe algum tipo de negação de serviço (se não consigo quebrar, será que posso evitar que o usem nos meus equipamentos?

PR: Obviamente que a melhor opção para bisbilhotagem de mensagens digitais criptografadas não é quebrar [a criptografia ou bloquear criptogramas], e sim grampear o fluxo de dados em canais de confiança internos. Os dados a cifrar, antes deles entrarem pela encriptação e o fluxo a decifrar, depois. Com o UEFI mandatório para hardware onde rodarão as cifras é como tirar doce de criança, para quem controla a chave privada na raiz da cadeia de autenticação ancorada em hardware.

    ... email 12:
A cifragem para sigilo só terá eficácia em contextos providos de canais de confiança fora-de-banda adequados à distribuição prévia de material habilitante, o que coloca um problema de recursão infinita (vide o sonho nunca realizado via protocolo PEM, da ICP global via padrão X-500, etc.) Ainda, sigilo e transparência podem constituir demandas conflitantes entre legítimos interlocutores sobre os mesmos dados e ao mesmo tempo. (ex.: NSA vs. snowden). De novo, nessa recursão infinita a lógica do canhão (Ultima Ratio Regum prevalece: no acionamento dos canais de confiança que em ultima instância habilitarão usos eficazes da criptografia ou de controle de acesso. Sumir ou calar Snowden, equivale a controle de acesso via negação de serviço. O resto, é só teatro. Pano de camuflagem na ciberguerra.

[...Para uso eficaz de criptografia em todo dado sensível o preço seria alto, e o mercado dos e-mails gratuitos, arquivamento em "clouds", e outros serviços baseados em "serviços grátis para os cidadãos" desapareceriam imediatamente. Imagino que não irá acontecer.] Não enquanto uma massa crítica suficiente considerar inócuo o escambo de sua privacidade monetizável por conveniências artificiais ou frívolas. [Assunto para belos discursos que deveriam ser acompanhado dos elementos tecnológicos necessários.] Eu prefiro dedicar-me aos estudos semiológicos, que completam a compreensão do papel das tecnologias de comunicação no processo de comunicação humana.



email 13:

Evandro Hora: ... " Empresa do espião Snowden foi consultora-mor do governo FHC"

PR: Haveria exemplo mais didático do que é vassalagem neocolonial?

    ... email 14:
[...cansei de ouvir o discurso "compremos tecnologia, porque reinventar a roda?  E, a partir daí, façamos um salto tecnológico... Ora, depois da porta arrombada, ficam surpresos e irritados.] Havia um projeto na ABIN destinado a recrutar especialistas que iriam auditar código GNU/Linux para montar e manter uma distro homologada contra backdoors óbvios, para uso em plataformas governamentais sensíveis, mas o projeto foi sabotado. Definhou por falta de verbas. Enquanto o BC vai mantendo o gasto governamental com licenças de softwares de parceiros privados do PRISM oculto em rubricas genéricas, enquanto a ciranda financeira global vai comendo cada vez mais do que o Estado brasileiro arrecada, hoje 45%, para pagar juros duma dívida pública que cresce em termos favorecidos, lá e cá por malabarismos contábeis os quais garantem insolvência no limite enquanto alimentam carry trades, e cá pela fraude à constituição infiltrada no art. 166 da CF em 1988. O problema é que, na medida em que o cinto aperta, a voz das ruas pode ficar sabendo.

    ... email 15:
[...Com toda movimentação que o governo está fazendo sobre guerra cibernética, não seria hora de investir, também, um pouco mais na Abin?] Sim, mas, investir em qual ABIN? Aquela do (ex-)diretor cujo cartão de apresentação tinha impresso no verso credenciais de agente [estrangeiro, justamente] do FBI?



email 16:

Alberto Fabiano: Sobre o Snowden, tenho ouvido falar de patriotismo, mas todo estado de desconfiança que ele está criando, já está criando um impacto comercial negativo aos estadunidenses, tendo potencial de gerar uma grande crise no mínimo quanto IaaS (Infrastructure as a service), PaaS (Platform as a Service), SaaS (Software as a Service ) e NaaS (Network as a Service), mas não só quanto a estes tipos de soluções de Cloud Computing para os EUA, não só neste campo, afinal, ele agora está falando que desenvolvedores de softwares colaboraram com o NSA, enfim... ele está tocando o CAOS!?

PR: Snowden está soprando um castelo de cartas, que quanto antes cair menos mal para o caos que de um jeito ou de outro há de vir. CAOS que está sendo gestado não por ele, mas pela engenharia financeira das treze casas bancárias que controlam a economia contemporânea, criando dinheiro sem lastro para ser mais ainda acumulado.

AF: Ele afirma que tem feito o que tem feito por patriotismo, sendo ele um indivíduo de inteligência:
1) O quão inteligente e patriótico é abalar a credibilidade de seu país perante ao mundo,  instaurando um estado de desconfiança com potencial de a médio e longo prazo causar a demissão de vários de seus amigos e arruinar empresas e a economia de seu país?

PR: Considerando que há aqui um jogo de palavras, com possíveis sentidos de 'inteligência', vamos lá.

Sobre a que move Snowden: Não creio que se trata de inteligência racional, nem de pátria terrena. A força e determinação que move suas decisões e ações são de natureza moral, não se medem com a razão. Nelas, a credibilidade do seu país perante o mundo deve ser abalada quando não for mais merecida, e não é mais merecida porque o país traiu seus princípios fundadores, voltando-se para a tirania contra a qual em seu berço se fez maior e modelo no mundo. Empresas são arruinadas o tempo todo. A contínua destruição de empresas e economias noutras paragens só tem razão de ser para preservar o complexo ciberindustrial militar que hoje controla o pais do Snowden. Se for para furar a bolha econômica que vem sendo inflada com mentiras, chantagens, operações de guerra psicológica e da qual esse complexo é peça fundamental, o potencial de dano é agora menor do que seria depois.

AF: 2) O quão inteligente é detonar seu ex-empregador, sendo ele um dos maiores sponsors de ações paralegais e operações clandestinas no mundo?

PR: Quando a inteligência é moral, e o contexto é esse, a resposta é óbvia. Não há martírio sem vítima, e o próprio Snowden soletrou isso com clareza invejável em sua primeira entrevista a Greenwald. A questão que aqui de fora parece insondável é outra: Quão corajoso?

AF: 3) Snowden é um cara muito corajoso, de bravura indômita ou ele não passa de um homem-bomba sem uma reivindicação verbal?

PR: A reinvindicação desse homem-bomba não precisa de ilocução, pois ela perlocuciona. Não está no espaço das falas ou dos discursos, mas na linguagem dos mitos. Sua conduta nos convida a observar uma régia e suprema nudez.

AF: Considerando que ele não teve a inteligência de cuidar adequadamente de sua própria segurança, quanta credibilidade este tal de Snowden merece?

PR: Ele descuidou da sua segurança corporal (alvo fácil) e mental (torturável em guantánamo) porque teve a inteligência moral de priorizar sua segurança espiritual, em circunstâncias onde se viu tendo que escolher. Quem confunde mente e espírito não consegue entender, mas ele cuidou da sua própria consciência. E adequadamente, considerando que a missão a que se propôs chegou até onde estamos. A credibilidade que esse cara merece é a dos mártires. Ou será que nossas mentes estão tão anestesiadas e desfibradas ao ponto de não mais conhecerem o conceito? Para ajudar a entender, convém lembrar que a diferença entre herói e traidor é apenas de referencial.

AF: Suas denúncias devem ser investigadas, a fundo, mas o contexto do lado dele também. Afinal, o que motivou "realmente" este indivíduo?

PR: [Investigadas por quem? Pelo denunciado, que também detém os meios de acesso às "provas"?] Se servir uma opinião sobre o realmente mas sem aspas, é só reler acima.

AF: Snowden tem consciência de seus atos?  Será que ele realizou uma projeção de cenários e tentou prever os movimentos do xadrez que voluntariamente ele iniciou? Já que Snowden está criando todo este estado de desconfiança, porque não começarmos desconfiando do próprio ex-sysadmin?

PR: Não creio que ele está criando "todo este estado de desconfiança". Creio que o que ele está criando é uma desconstrução de toda máscara e camuflagem do "estado de confiança" anterior. Quem quiser manter as suas, que comece então desconfiando (da própria desconstrução).

AF: Tenho certeza que falta algumas peças neste quebra cabeças... quais são? Não sei, de verdade, nem desconfio, mas acho que devemos questionar um pouco mais tudo isto.

PR: Numa palavra, Bilderberg.

AF: Snowden merece proteção, mas acima de tudo, esta situação merece uma compreensão maior. Afinal, o que de fato está por trás de tudo isto?

PR: Creio, sinceramente, que Snowden foi levantado por Deus para esta sua missão. Ou pelo diabo, induzido por Deus (Deus é o Senhor da história, suas profecias com o tempo só ganham nitidez). Por isso Snowden não age como uma pessoa "normal".



email 17:

Alberto Fabiano: Acho que há um outro aspecto nesta história toda... Porque neste século estamos a acreditar tão fácil em certas histórias? Afinal, várias empresas estão negando que as coisas são como Snowden comenta que é, porém é a versão dele que está sendo considerada mais crível.

PR: Teoria dos jogos explica: Quem tem mais a ganhar ou perder aqui, se falar a verdade ou mentir? Snowden está condenado à morte, física ou simbólica, o que ele teria a ganhar mentindo? A pergunta que equaciona esse jogo eu já fiz antes, ninguém responde, mas a pergunta que apenas formula o jogo continua ecoando. Para resolver esse jogo, pense e responda: Se Snowden não merece crédito, então por que toda essa fúria persecutória contra o morto-vivo, gerando crises diplomáticas que mais parecem tiros no pé?

AF: Será que uma grande teoria da conspiração não está sendo aceita muito facilmente?

PR: Fazer política é a arte de conspirar [supõe-se que no limite da lei]. E conspiração, na prática, só pode ser eficaz se parecer apenas mera teoria. Praticamante tudo que Snowden diz os especialistas já sabiam ou intuíam, mas não queriam admitir ou acreditar. A diferença é que agora eles não podem mais fingir que não sabem, fingir inteligentemente que isso não importa ou que é tudo paranóia, pois tem um candidato a mártir furiosamente perseguido para estragar o script. Então, quando a conspiração não parece mais apenas mera teoria, a roupa do rei se alinha com raios de luz. E voilà: uma grande teoria da conspiração não está sendo aceita muito facilmente como apenas mera teoria.

AF: Por um lado o cenário favorece tal aceitação, mas a sensação que tenho é que a sociedade está aceitando muito numa boa esta versão conspiratória, sem questionar, simplesmente aceitando por causa da própria natureza da questão, minha sensação é que o público está dividido entre: a) aqueles que acham um absurdo que os estadunidenses tenham tamanho poder;

PR:...Na prática.

AF: b) aqueles que afirmam que não há novidade, que isto sempre ocorreu;

PR: ...Em teoria.

AF: e c) aqueles que estão fora destes grupos amostrais formam universos tão diminutos que são quase desprezíveis estatisticamente. Uma coisa é quando se fala de metadados, que por si só é uma violação de privacidade, porém outra coisa é quando se fala de violação indiscriminada de informações a revelia, quebrando a privacidade garantida por meios criptográficos.

PR: Garantida por quem? Como? Em qual plataforma? Teoria e prática.

AF: Vamos colocar a questão de uma forma diferente: - Independente das ameaças que uma agência está tentando combater, que seu país possa sofrer, é inteligente criar um complexo sistema que abale a credibilidade de sua nação, a ponto de colocar sua economia em risco?

PR: Respondida na msg anterior.

AF: É inteligente criar um aparato com potencial de gerar um tamanho impacto que possa "quase" destruir parte de economia de seu país não sobrando muita coisa para proteger?

PR: O poder corrompe. O poder absoluto corrompe absolutamente.

AF: Será que não estão aproveitando um histórico, ou ficha corrida, de ações paralegais e operações clandestinas para se contar uma história com potencial crível, quando a realidade é um pouco diferente?

PR: A realidade é de fato um pouco diferente. Basta ver os resultados da tal folha corrida: no Oriente médio, agora; na América latina, dos anos 50 na Guatemala, dos anos 70 e 80 no cone sul e central, e depois em Guantánamo, etc. E há outras (ainda meras) teorias, por exemplo sobre convergências entre o projeto New American Century dos neocons e os atentados em 11 de Setembro dos terroristas sauditas.

AF: Afinal, o que está acontecendo de verdade? Não duvido do potencial do NSA, mas tenho a sensação que tem algo que não se encaixa nesta história, que está faltando certas doses de "inteligência" nesta história toda. Mas pode ser que o que está sendo contado é exatamente o que aconteceu, porém mesmo assim tem algo de podre neste reino...

PR: Repito a palavra: Bilderberg.

    ... email 18:
PR: [argumenta-se que Snowden é traidor da pátria e por isso não merece crédito.] Cabe-me mais um comentário pois me parece que estou sendo mal compreendido. ... Não creio que alguém aqui discorde da afirmação de que Snowden é um traidor, e que não merece crédito. ... Ao mesmo tempo, ao contrário, pois a questão de fundo é: de qual pátria se fala? Ele é um herói para a pátria que tomaram dele e dos que lhe dão crédito. Ele é um traidor para a pátria que se instalou no lugar daquela, e não merece crédito para quem transformou aquela em sua própria nêmesis. Tudo muito racional, pois o descrédito é a única forma que resta a essa falsificada pátria, de negar a existência histórica da original enquanto tenta se passar por ela.

Mas não somos nós que escrevemos a história do que se passa hoje. Para o eixo traidor-herói, o referencial da história só se estabiliza com o tempo, na medida em que vencedor após vencedor a escrevem e reescrevem. No Brasil, por exemplo: ninguém discorda que Getúlio Vargas traiu a pátria de Washington Luiz e de Júlio Prestes, e que os tenentes que deram crédito a essa traição também traíram a pátria dos seus generais. E então, com o tempo as reverências oscilam, junto com "a" pátria. Cada um com a sua, no seu coração, onde elas existem. E aqui, depois de um vai-e-vem, Getúlio acabou indo-se com a dele, mesmo perfurada. [Quis ele assim, para mudar a sua.] No mais, Snowden me faz lembrar Vandré. Quem sabe faz a hora, não espera acontecer.



email 19:

Roberto Barreto: Acho que é isto o que mais incomoda: a internet traz à tona, muito rapidamente, verdades escondidas.

PR: Mais um exemplo -- esse em tempo real -- de vassalagem neocolonial: " Lei dos EUA obriga que equipamentos de rede, também usados no Brasil, tenham ‘backdoor’ "

    ... email 20:
PR: [O alarde não é por estar sendo espionado, ou porque muitos ou todos já sabiam disso; o problema é aparecer assim na 1a página dos jornais] Creio que o problema e o alarde não são só devido à publicidade atual, pois há também uma questão de grau, escala e escopo. Sabia-se em 2001 que o Echelon interceptava sinais de satélite, mas hoje sabemos mais: que os backdoors agora exigidos por lei (CALEA) nos roteadores de grande porte homologados nos EUA estendem a vigilância também para quase todas as rotas de fibra ótica, centralizadas na arquitetura atual dos backbones transcontinentais, que por decisões empresariais bordeiam os pontos de troca de tráfego nacionais. Hoje sabemos o que em 2001 só suspeitávamos: que a vigilância se estende capilarmente a quase toda plataforma individual, neutralizando nelas a única possível defesa restante (criptografia); e a quase todo serviço agregado global (via PRISM), instrumentando mineração de dados para os "signature strikes", em que drones matam suspeitos rastreando-os por padrões digitais de comportamento, sem identificação positiva, em breve também por essas bandas.

Se, como insinua uma pergunta do porquê do alarde, em 2001 já havia no governo Brasileiro quem soubesse disso tudo, e advogava ou advoga pelo uso daquela plataforma (do pioneiro parceiro privado do PRISM) em órgãos de governo, ou, sabendo disso tudo, nada fez para impedir este uso, então conforme qualquer definição jurídica do termo o problema aí seria no mínimo de traição. E se traição à pátria no Brasil não for mais crime, ou se é crime só para certa cor ideológica do suposto beneficiado inimigo, então podemos dizer que o alarde é porque, como disse outra mensagem no thread, a internet traz rapidamente à tona verdades escondidas: nesse caso, de mais vassalagem neocolonial.



email 21:

Alberto Fabiano: Enfim, isto sim é uma VERGONHA.

PR: Isto também.



email 22:

Alberto Fabiano: Caçar Snowden como traidor é no mínimo razoável por parte do tio Sam?

PR: Pode ser razoável sob algum ponto de vista. Para mim, que estudo e pesquiso teoria e prática conspiratórias como construtos semiológicos, a maneira como ele está sendo caçado, gerando colateralmente crises diplomáticas que mais parecem tiros no pé (por exemplo, a humilhação ao índio Morales legitimou na prática sua acolhida pelo governo da Rússia), serve como pista para as peças faltantes do quebra-cabeças. A entrevista de Greenwald ao jornal La Nación da Argentina, publicada assim que Snowden declarou em encontro com ativistas de direitos humanos no aeroporto de Moscou que aceita as condições impostas por Putin para receber asilo na Rússia, corroboram a utilidade de uma peça que localizei numa entrevista concedida por um analista de mercado publicada em 25 de junho.

AF: Apesar da expressão socrática ser "um peso e duas medidas", a posição dos estadunidenses quanto aos pilotos do vôo 1907 é mais que imoral, inaceitável e absurda; é uma afronta. Mais vergonhoso ainda seria extraditar ele, além de um paradoxo socrático, seria um ato indecente e repugnante por parte de qualquer país. Afinal, o caso merece ir para corte internacional, pois Snowden traiu os USA; mas provado que o que ele afirma é verdade, ele teve um ato nobre e humanitário com o resto do mundo. Snowden merece asilo humanitário e a alta corte da Irlanda está mais do que certa em sua postura, assim como o chefe da Anistia Internacional na Rússia, VERGONHOSO é tão poucos países terem oferecido asilo a ele.

PR: Desconheço a manifestação da "alta corte da Irlanda" sobre o assunto. Não seria o parlamento da Islândia? Sobre opções para "solução" de longo prazo referentes a asilo, o parlamento da Islândia decidiu adiar a votação duma proposta apresentada por um legislador, para conceder cidadania Islandesa a Snowden, para depois do recesso parlamentar de verão. Afinal, a Irlanda tem um governo fantoche que, como o da Grécia, está jgocando direitinho o jogo das treze casas bancárias que dominam de fato a geopolítica global, enquanto a Islândia acaba de declarar moratória aos bancos estrangeiros que lá foram com muita sede ao pote, amparado em plebiscito.

AF: Mas confesso que estou bem curioso para saber qual será a versão do técnicos do NSA, que afirmam que sua "espionagem" não cometeu nenhuma afronta a Convenção de Viena e nenhuma ilegalidade no Brasil. Se assim foi, não houve espionagem.

PR: Ou talvez pior, pode ter havido uso impróprio de informação privilegiada. Teremos mais peças para o quebra-cabeças amanhã, quando publico uma entrevista.

AF: Agora, como garantir que o julgamento do Governo dos USA vs Resto do Mundo, seria justo?

PR: Na corte da opinião pública -- única onde este julgamento na prática pode acontecer -- o conceito de justiça roda na nuvem.

AF: De qualquer forma, até que não fosse provado que Snowden inventou tudo isto, não faz sentido algum extraditá-lo.

PR: As peças do quebra-cabeças precisam ser encaixadas na ordem certa.



email 23:

Alberto Fabiano: Sobre a Irlanda estou me referindo a esta notícia: "Irlanda nega pedido de prisão dos EUA contra Snowden", com mais detalhes em [2], [3]

PR: Esta "peça" irlandesa, ainda não sei como encaixar. Já a que Max Keiser nos mostra na primeira resposta que escrevo em "Como entender essas denúnicas de vigilantismo global", essa eu acho mais fácil...

    ... email 24:
PR: [George Foreman,"Keeping the NSA in Perspective", Geopolitical Weekly, da Stratfor (empresa de fachada da CIA)] Interessante esse artigo do establishment.

O truque aí, de equiparar "guerra ao terror" com guerra convencional ou com estado de guerra idem, regurgitar continuamente essa cantilena do 11 de setembro (que pode ter sido uma operação conjunta) e panelas de pressão (que o autor em Boston atribui, pela motivação, a efeito colateral da própria "guerra ao terror"), não cola mais depois de Snowden. O vigilantismo desbragado não conseguiu desarmar uma panela de pressão perigosa depois de 11 de setembro, então, fazer o que? mais poder para os fanáticos do controle, e menos privacidade para todos os cidadãos do mundo? Mas quantos artefatos vão continuar explodindo e matando gente indiscriminadamente, com pólvora ou com rodas na rua, com feijão ou com carne no fogão, ou com drones mirando alvos incertos sabe-se lá onde? A chance de um americano morrer num acidente de carro é 500 vezes maior que num ataque terrorista.

O analista do  establishment termina citando Benjamin Franklin, ao dizer: quem troca liberdade por sentimento de proteção não merece nem uma coisa nem outra, depois de defender longamente esse mesmo escambo. Então ele está dizendo que os povos que vêm engolido essa não merecem nem liberdade nem segurança. Faz-me lembrar o pai do Snowden. Num programa de TV, pediram-lhe para comentar pesquisa de opinião onde 56% aprovavam os abusos da NSA, e ele disse: se o povo aceita trocar seus direitos civis e liberdades por um sentimento maior de proteção, então os terroristas venceram, pois o que faz os EUA são justamente os direitos civis e as liberdades individuais. Aí eu completo. Os terroristas venceram porque o fiel da balança pendeu para o lado errado, pois na elite do establishment, terroristas infiltrados de gravata comandam essa guerra psicológica: à guisa de guerra oculta contra centenas disfarçados entre bilhões, impuseram esse escambo como necessário e inevitável, em democracias moribundas carcomidas pelo poder do dinheiro.



Homenagem do Editor

Para Alberto Fabiano, do Garoa Hacker Clube de São Paulo, falecido dois dias após autorizar a publicação das suas mensagens neste debate.

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Editor e co-autor

Pedro Antonio Dourado de Rezende é professor concursado no Departamento de Ciência da Com­putação da Universidade de Brasília, Advanced to Candidacy a PhD pela Universidade da Cali­fornia em Berkeley. Membro do Conselho do Ins­tituto Brasileiro de Política e Direito de In­formática, ex-membro do Conselho da Fundação Softwa­re Li­vre América Latina, e do Comitê Gestor da Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira (ICP-BR). http://www.­cic.unb.br/~rezende/sd.php

Direitos de Autor

Pedro A D Rezende et. al., 2013:  Este debate é publicado no portal do editor-coautor, após a concordância dos demais coautores, sob a licença disponível em http://creativecommons.org/licenses/by-nd/2.5/br/

Imagem: Foto de Alberto Fabiano editada do arquivo em http://3.bp.blogspot.com/-9Dp6elTIFkw/UfB25bTJHxI/AAAAAAAABZ4/oxOm1eQtOzE/w1200-h630-p-nu/1016224_549229248470791_918915380_n.jpg