http://www.cic.unb.br/~rezende/sd.htm > urna eletrônica : entrevistas

A Urna Eletrônica e os ciberbobos

Entrevista a Daniela Moreira,
para
matéria na portal "IDG Now",

Prof. Pedro Antonio Dourado de Rezende
Departamento de Ciência da Computação
Universidade de Brasília
21 de Julho de 2006



Daniela Moreira: 1. É possível fraudar as urnas eletrônicas usadas no Brasil hoje, manipulando resultados de eleições? Como?

Pedro Rezende: É possível fraudar qualquer sistema de informação, sem exceção. O grau de informatização apenas determina a natureza das possíveis fraudes, o perfil de risco que nele correm interesses envolvidos. Inclusive o sistema eleitoral usado no Brasil hoje, do qual as urnas eletrônicas são apenas uma parte. Sobre este, o que mais surpreende um especialista em segurança computacional como eu é a combinação inquietante de dois fatores.

Um deles é o fato da legislação que determina as características do sistema, sua forma de operação e controle por humanos, vir sendo promulgada através de estranhas manobras políticas, que acabam por cercear completamente o debate fora de um círculo reduzidíssimo de interessados, e cujo resultado bloqueia, para possíveis vítimas, os meios de prova de eventuais irregularidades eleitorais (vide [17]).

Conforme tal legislação, quem deve julgar a suficiência dessas provas são justamente os que controlam o sistema, e portanto, o acesso aos meios de se obtê-las. São os que deveriam responder por eventuais irregularidades nele encontradas, os mesmos que têm invariavelmente negado tal acesso, sob o pretexto de que, se o fizerem, estariam vulnerando o sistema ou pondo em dúvida sua segurança, argumentos obviamente circulares.

O outro fator é o de que a mais grave conseqüência desse fato, ou seja, a impossibilidade de potenciais vítimas obterem prova de irregularidades num sistema eleitoral que não permite recontagem, nem auditoria efetiva ou tampouco avaliação isenta, vir sendo vendida à opinião pública como prova da sua segurança.

Vendida não só pelos que poderiam se beneficiar dessa percepção distorcida, herdeiros oligárquicos da República Velha e da sua política de conchavos, mas pela mídia corporativa que amplifica esse sofisma, e que também tem os seus interesses. Nesse contexto, qualquer tentativa de responder à segunda parte da sua pergunta, sobre como as fraudes poderiam ser nele feitas, me enredaria numa inescapável armadilha.

Quando o contexto é outro, quando o assunto em foco é esse primeiro fator, eu a tenho respondido, como por exemplo em [13], [14]

DM: 2. Quais são as principias brechas de segurança na urna eletrônica brasileira? Elas estão ligadas a hardware, software ou comunicação de dados?
PR: As principais brechas de segurança não estão na urna, estão no sistema. Estão na concentração de poderes sobre o processo eleitoral. A entidade cujos dirigentes têm feito lobby por leis eleitorais de seu interesse é a mesma que as interpreta, regulamentando aspectos tecnicamente essenciais das eleições eletrônicas, a que organiza e executa essas eleições, e a que julga seus próprios atos. A mesma que terceiriza praticamente tudo referente a tal execução, para empresas multinacionais e sem contrapesos fiscalizatórios adequados, diluindo ainda mais a possibilidade de se rastrear influências indevidas naquilo que seria o cerne da nossa democracia.

As principais brechas não estão no software, no hardware, ou na comunicação de dados. Estão no elo humano que controla as ligações entre o hardware, o software e a comunicação de dados, costurados pelo mito da infalibilidade do sistema e da incorruptibilidade de quem detém privilégios para controlá-lo dessa forma. Esse mito é acalentado na opinião "pública" de ingênuos e passivos ufanistas, transformados em ciberbobos pelos dogmas da seita do Santo Byte (vide [15]).
DM: 3. Como elas podem ser eliminadas ou minimizadas?
PR: Só com uma mudança coletiva de atitude, sobre os rumos da nossa república, poderemos superá-las, para enfrentar o novo ciclo de ameaças à democracia. Foi assim na revolução de 30, que culminou um movimento cívico-militar em favor do sigilo do voto.

Quando, ao sair do regime monárquico, o Brasil inaugurou sua república federativa e democrática, grassava o analfabetismo. A maioria analfabeta, movida por uma mistura de ufanismo republicano com vergonha da ignorância, aceitou durante quarenta anos o bico de pena. O bico de pena nos levou à política café-com-leite, cujos efeitos colaterais a tornaram inaceitável para uma sociedade cada vez mais urbanizada e modernista, fato que nos trouxe a revolução de 30.

E quando, depois do Estado Novo e da ditadura fardada, o país busca de novo a democracia, a mesma vocação oligárquica que nos assombra há 500 anos, agora seduzida pela oportunidade de fazer do processo eleitoral um espetáculo tecno-midiático, aceita o bico de laser. Para que eleição vire algo parecido com corrida de fórmula um, com narrador e tudo. Onde o sigilo do voto vira gancho para a tecnologia solapar o direito do eleitor conferir a contagem do seu voto, em troca de velocidade no resultado.

Alguém já lhe perguntou o que você como eleitor prefere, se apuração veloz ou resultado conferível? Alguém estaria tentando lhe enganar sobre as consequências de importantes escolhas tecnológicas do sistema, tomadas a portas fechadas, estarem colocando uma coisa em detrimento da outra?

Precisaremos de um movimento em favor da fiscalização do voto, na medida em que o eleitor médio for vencendo o analfabetismo digital e contemplando, novamente, os efeitos colaterais de um arranjo que, à guisa de modernização, se assemelha ao da República Velha. O bico de pena que fundou a República Velha foi, de fato, modernizante em relação ao regime monárquico, mas não precisamos esperar quarenta anos para termos de volta o direito de fiscalizar o registro de nossas, digamos assim, vontades políticas.
DM: 4. O uso da biometria resolveria os problemas de segurança?
PR: Eu não faço a menor idéia de quais seriam os reais motivos para se usar biometria no sistema eleitoral. Os alegados até aqui, honestamente, não compreendo. No meu descortino de cidadão que preza a democracia e que se especializou em segurança computacional, está claro que um sistema de identificação tão complexo, caro e difícil de fiscalizar serve bem para sustentar o discurso da modernização eleitoral, mas confesso-me completamente confuso sobre qual problema de segurança, isto é, segurança de quemcontra o quê, ela poderia bem servir como solução. Posso ser um neobobo, mas não creio ser um ciberbobo. Para clarear minha confusão, resta-me analisar, à luz do contexto, o que é de conhecimento público.

Ouve-se dizer que a biometria seria adotada para erradicar "a única forma de fraude restante" no sistema atual. Concordo em parte. A única forma de fraude à antiga, 'de varejo', que restou foi, de fato, a fraude no cadastro, pois as outras foram trocadas por novas formas. Novas formas que poderíamos chamar de atacadistas, pelo inétido patamar na relação desvio/efeito que podem provocar, mas que são ainda desconhecidas de leigos e analfabetos digitais, combinação perigosa o suficiente para serem consideradas de alto risco à democracia. Quanto à antiga forma de fraude que permanece, ela faz parte da cultura política e do folclore sobre o modus operandi de alguns políticos nativos. A saber, o controle de cartórios eleitorais em sua área de influência para inchar o cadastro eleitoral com fantasmas, na forma de eleitores que recebem mais de um título, obtidos com variantes do nome ou com documentos falsos, e que votam pelo outro pé de uma nova botina.

Enquanto o cadastramento de eleitores for localmente controlado, não há nada que o TSE possa fazer contra essa forma varejista e resistente de fraude; cada cartório eleitoral decide como coíbe ou não coíbe, como faz vista fina ou vista grossa, como dissipa ou participa desse tipo de manipulação. O cadastro eleitoral de Camaçari-BA, por exemplo, que já foi três vezes refeito a mando do TSE, para expurgar eleitores fantasmas com múltiplos títulos, cresce a cada recadastramento e sempre além das estimativas demográficas, inchaço neste caso "justificado" por estar o município em área metropolitana (Salvador).

Se o objetivo fosse mesmo o de neutralizar a fraude cadastral que resiste, à moda antiga, à informatização impingida ao eleitorado brasileiro, a solução mais racional seria, também, à moda antiga. Eficaz, barata, fácil de fiscalizar, testada e usada por democracias que se preocupam com sua própria saúde: a tradicional tinta indelével no dedo de quem vota. Por outro lado, a introdução de novas tecnologias da informação, como a biométrica, traz sempre consigo, como já disse, novas formas de fraude, associadas à subversão do seu propósito. Tecnologia não é panacéia, e seria bobagem confundir ignorância com inexistência dessas novas formas. Seria, neste caso, uma ciberbobagem.

Para quem, doutra feita, porventura contemple interesses que dependam da centralização do controle, e não da erradicação, desse tipo de fraude cadastral, a medida tradicional da tinta no dedo obviamente não serve: é uma medida de segurança muito fácil de fiscalizar, por qualquer um, e extremamente difícil de se burlar, quando fiscalizada. Além de muito barata, comparada à biométrica ou a outras alternativas, o que poderia diminuir o interesse de fornecedores dispostos a acordos impublicáveis. Caberia a tais interesses demonizar a medida tradicional como atrasada e antiquada, um retrocesso ou coisa que o valha, para vestir a ciberbobagem da panacéia biométrica com roupa nova de rei.

Se o objetivo em demonizar o combate racional à fraude cadastral for mesmo impublicável, algo que demande a centralização do controle sobre os possíveis meios de se praticá-la, a tecnologia biométrica viria a calhar. Principalmente num eleitorado já adestrado à noção de eleição como espetáculo tecno-midiático, para o qual democracia quer dizer apertar botão em caixa-preta e sentar em frente a televisão para ver pesquisa ou resultado, a cada dois anos. Seria apenas mais um botão a apertar, mais uma renúncia ao direito de fiscalizar, desta vez cedido a programadores da biometria.

Cedido a quem controla uma tecnologia que serve tanto para impedir o cadastramento de eleitores fantasmas, quanto para permiti-los onde se queira, onde quem não é fantasma duvida que ainda existam. Bastam ingênuos e ínfimos 'erros' de programação, de configuração ou de operação do sistema para que o cruzamento de digitais em títulos eleitorais, destinado a impedir que o mesmo dedo esteja em vários títulos, ocorra, ou não ocorra, nestas ou naquelas zonas eleitorais.

Com a biométrica, quem não se liga, ou não quer se ligar, em tantos detalhes poderá ignorar a mudança no perfil de riscos, a questão se eventuais falhas, especuladas ou vazadas, nessa tecnologia caça-fantasma "de ponta" seriam ou não intencionais, ou se poderiam ter sido. Já os que recusarem a ignorância, terão que ficar com a dúvida. Quem não se incomoda com tal ignorância ou com a natureza dessa dúvida pode passar, sob influência da propaganda oficial que irão ingerir pelos ouvidos, a comungar na seita do Santo Byte, pregada por sabichões que fingem crer nos seus dogmas, ou que os vendem como tecno-panacéia.

Os comungantes acabam acreditando num conto de fadas onde tecnologia da informação é varinha de condão, capaz de transformar nossa democracia-borralheira em fada-cobaia que vagueia por uma gigantesca aventura de engenharia social. E seguem comungando, alimentando o "debate da segurança" eleitoral. Os reinventores da democracia, os que entraram no primeiro mundo zelando pela sua, estão errados ou são bobos (vide http://www.verifiedvoting.org), nós é que estamos certos e somos espertos, sustentam eles. Enquanto fingem já terem se esquecido do escândalo do painel do Senado ocorrido em 2001.

Santa ignorância. Para se ter nas mãos mais essa varinha de condão -- a da biométrica --, é preciso obtê-la. Com contratos sempre difíceis de vir a público, e que devem incluir, dentre outras despesas, uma bolada de pedágio à licenciadora do software que gerencia o banco de dados cadastrais, hoje a empresa Oracle, cujo modelo de licença se baseia na idéia do taxímetro. Bolada a ser paga a cada eleição, pelo enorme volume de processamento extra que esse cruzamento de dados (comparar a impressão digital eletrônica de cada eleitor com 100 milhões de outras) exigiria, no cadastro guardado a sete chaves no TSE.

Pedágio cobrado, considerando-se as licenças em vigor, quer esse processamento seja executado no seu total, em parte ou em parte alguma. Processamento que apenas imitaria o que o olho de um mesário pode fazer, diante de uma foto no título de eleitor, como faz o do guarda de trânsito diante de uma foto na carteira de motorista. E por fim, foto de eleitor que foi eliminada do título, no recadastramento geral para a informatização do voto.

Nesta negociação, é possível que alguém contemple, inclusive, a possibilidade de uma parte do pedágio dirigir-se ao caixa dois de candidatos que se beneficiem da duplicação de digitais eletrônicas em "suas" zonas eleitorais, duplicações que não seriam detectadas pela biométrica no cadastro devido a alguma misteriosa falha no sistema. Em troca de apoio, como seria razoável supor, à preservação de tão moderno serviço, sustentado pelo dinheiro do contribuinte. Alguém, por exemplo, dos quadros de uma fornecedora.

Para seguir no exemplo hipotético, por alguém da segunda maior fornecedora de urnas eletrônicas e softwares do TSE, que teve ou tem, na folha de pagamentos de sua matriz, lobbistas envolvidos em práticas semelhantes (vide [10]), inclusive um recém-condenado nos EUA por estelionato e formação de quadrilha, Jack Abramoff (vide [11]). Matriz que está, por sinal, empenhada numa campanha mundial pela adoção dessa tecno-panacéia (vide [12]):

Uma vez operante essa varinha de condão, os que entendem o mundo através do espaço e horário nobres da mídia corporativa, e que comungam na seita do Santo Byte, depois de repetidas ingestões de beberagem marqueteira pelos ouvidos não mais acreditarão em eleitores-fantasma. Ao contrário, pois terão visões. De anjos, programando urnas eletrônicas. O ciclo da corrupção poderá assim aspirar a completude, sem muita trepidação, com a blindagem da mãe de todas corrupções, a fraude eleitoral.

Possibilidades como esta, autoridades eleitorais costumam atribuir a mentes doentias, tomadas pela paranóia ou pela "síndrome da conspiração". Atribuídas com mais gravidade, se a questão é credibilidade, pelo mesmo ex-presidente do TSE que confessou ter manipulado, à sorrelfa, o texto da Constituição Federal durante a Constituinte de 1988, quando era deputado. Hipóteses que podem, entretanto, parecer menos bisonhas ou paranóicas quando se leva em conta certos fatos cujo "valor jornalistico" a grande mídia corporativa despreza. Fatos que ilustram, por exemplo, como o controle sobre a terceirização do processo eleitoral, que essas mesmas autoridades alardeiam adequado ou total, parece não estar entre suas maiores prioridades.

Alguém sabe, por exemplo, por onde na Bahia andavam sete mil flashcards (25% dos dispositivos de carga e armazenamento de software e dados eleitorais das urnas do estado) extraviados até poucas semanas antes da eleição de 2002? (vide [16]) Alguém sabe, por acaso, como foram pagos e fiscalizados, e por quem, 10 mil técnicos 'quarterizados' para executar aquela eleição? Os que instalaram softwares "auto-verificáveis" nesses flashcards, em preparação das urnas eletrônicas para os pleitos de então? Ou mesmo, onde se pode encontrar uma lista com os seus nomes? (minha solicitação desta lista ao TSE, através do ofício 11353/2003, teve a resposta de que não seria possivel fornecê-la)

Resumindo, alguém já se perguntou por que, e como, em tempos de déficits enormes e crescentes do Estado brasileiro não falta verba para aventuras modernosas como esta? Porque não provam nada, questionamentos e fatos como esses são desprezados pela banda devota da mídia e pregadores do Santo Byte, sabichões vestidos de ciberbobos. Desprezados ao menos enquanto fornecedores da informática eleitoral estiverem se envolvendo com certas ações beneméritas, tipo a de sustentar certos lobbies, como teria se envolvido a maior fornecedora de urnas eletrônicas e softwares ao TSE, conforme noticiaram os dois maiores jornais do país [vide 1, 2], no sustento da mansão do lobby de Ribeirão Preto no Lago Sul de Brasília. Aquela cuja intriga impulsionou a queda de um minsitro da Economia e de um presidente de banco estatal, em 2006.

Assim, depois que a propaganda oficial tiver proclamado a extinção, pela biométrica, dos eleitores-fantasma, "erros no sistema" como o que subtraiu "temporariamente" votos do candidato Lula na totalização do primeiro turno em 2002 [vide 3], "erros" também capazes de ressussitar esses fantasmas em certos currais eleitorais, terão importância ainda mais desprezível para esses sabichões e seus ciberbobos. Da mesma forma que os falsos negativos e falsos positivos da identificação do votante, induzíveis até com o uso de cola de papelaria no dedo [vide 4, 5, 6]. Mais desprezíveis ainda para quem ganha dinheiro com essas panacéias eletrônicas, especialmente na banda endividada da mídia corporativa que lhes vende espaço publicitário.

Que fique claro que não estou afirmando, nem direta nem obliquamente, que o objetivo principal de uma eventual introdução, pelo TSE, de identificação biométrica no nosso sistema eleitoral seria a blindagem contra fiscalização e a monopolização do acesso aos meios de se fraudar o cadastro de eleitores. Estou apenas e tão somente ponderando como uma tal medida serviria a contento para cumprir tal objetivo caso este objetivo esteja sendo contemplado por interessados habilitados, em esferas de poder suficientemente inseridas.
DM: 5. As eleições eletrônicas, como ocorrem hoje, são mais ou menos confiáveis do que as realizadas por meio de células de papel?
PR: Depende. Confiável para quem? Para quem acredita que a eleição agora é segura já que não existem mais provas de fraude, ou para quem acredita que a eleição só é segura se existirem meios de prova? A resposta mais curta e honesta é: Depende de quem organiza, de quem concorre e de quem vota. Já a resposta mais longa, que ciberbobos e asseclas do Santo Byte desprezam porque é técnica, ou doutoream apesar disso, ou atacam com argumentos ad hominem porque vem de "algum maluco do voto impresso", passa por fatos concretos que independem dessas subjetividades. A objetividade mais simples pode estar na pergunta: o que é preciso para fraudar uma eleição?

De um lado, para se fraudar uma eleição eletrônica que não permite recontagem, como a que ocorre hoje no Brasil, de forma a garantir eleição de candidato a pleito proporcional (deputado, vereador), por exemplo, através do salpique interno de uma votação mínima por urna, ou de forma a inverter resultado em pleito majoritário, por exemplo, pela programação sorrateira do desvio de votos em cada urna em proporção escolhida, digamos, em pesquisa de véspera paga ou não pelo "cliente", basta um único programador mediano com privilégios, informação e oportunidade adequadas, ou costas suficientemente aquecidas.

Tanto melhor se protegido pelo modelo hoje adotado, o da "segurança por obscurescimento", obscurescimento que os ciberbobos não conseguem discernir, por exemplo, na transparência com que os mágicos operam suas caixinhas pretas, e segurança que não sabem distinguir, por exemplo, no embaralhamento que mistura a do fornecedor do sistema com a do usuário que quer lisura. Por onde entra, por exemplo, a lista de nomes e fotos digitalizadas de candidatos, pode perfeitamente entrar também ínfimos programas camuflados.

Se pode entrar, pode entrar programa capaz de se reproduzir como vírus durante o processo de preparação das urnas eletrônicas, para, no momento exato, executar uma dessas façanhas, e logo apagar a si e a seus rastros nas urnas. Pode entrar inclusive escondido "até" da Justiça Eleitoral, na foto digitalizada do candidato, fornecida pelo próprio, se um certo sistema operacional, selecionado por um desnecessário quesito técnico de uma linha, linha que vem sendo introduzida nas licitações do TSE a partir de 2002, esteja sendo instalado nas urnas sem os devidos reparos em determinados módulos. Neste caso, através da "porta de fundos" conhecida por WMF (vide [8, 9]).

Esse sistema, o TSE não está permitindo que os partidos políticos inspecionem, ao contrário do que alardeia pela imprensa devota, nem permitindo testes, até hoje sempre negados. Nem mesmo controlando suas licenças de uso, que alega desconhecer. Mas o TSE o vem usando, e pretende seguir usando-o, nas mais de 160 mil urnas eletrônicas adquiridas a partir de 2002, de um total de pouco mais de 400 mil (vide [13]).

De outro lado, para se fraudar com o mesmo efeito uma eleição em cédulas de papel é preciso cooptar, chantagear e intimidar muita gente, pessoas dispostas a batalhas campais em sessões de votação e juntas de apuração, ou nelas surpreendidas. Pessoas que não precisam de diploma de doutor em ciência da computação para entender que estariam trapaceando ou sendo trapaceadas (basta saberem somar). O que também pode requerer costas quentes, porém, tanto pior pela manobra ser praticamente impossível de se ocultar. Como na Ucrânia e no México recentemente, onde o império global aquesceu as costas da autoridade eleitoral em situações opostas.

De um lado, fraudes de varejo, difíceis de esconder; do outro, fraudes por atacado, difíceis de comprovar, por serem facilmente blindáveis com truques obscurantistas "de natureza técnica". De minha parte, não fico muito contente em saber que estou sendo obrigado a trocar o primeiro tipo de risco pelo segundo.

Esse segundo tipo de risco, o da fraude eletrônica em eleições, assombrou o Brasil pela primeira vez na eleição para governador do estado do Rio, em 1982. E foi logo na estréia da informática no processo. A varinha de condão da "apuração computadorizada" produziu não só a tentativa de se alterar o resultado, mas também o acobertamento da sua autoria (vide [7]). Uma estratégia imbatível, diga-se de passagem, para candidato a fraudador, pois ninguém prova nada.

A escolha do sistema operacional Windows CE para as urnas eletrônicas licitadas a partir de 2002, empunhada com proibição sistemática de qualquer teste de penetração, pode ser uma varinha melhorada. Capaz de materializar, com um simples gesto de "critério técnico" licitatório, álibis ao TSE e seus fornecedores, por desculpabilidade plausível, contra possíveis indícios de fraude (via WMF ou outras portas de fundo, inclusive desconhecidas fora da fornecedora). Álibis agora lastreados com garantia "tipo Omertá" para o arranjo, contra o risco de políticos beneficiados abrirem o bico, à la Roberto Jefferson.

 "Ninguém prova nada!" Para quem quer decidir no que acreditar, a pergunta: quem diz isso, e como? E já que o assunto é risco, outra: Por que a maior empresa de pesquisas de opinião do mundo, o Instituto Gallup, que faz pesquisas eleitorais e faz pesquisas no Brasil, por que ela não faz pesquisas eleitorais no Brasil?



revisado entre 27 e 31.07.06

Bibliografia


[1]- Entrevista de Rogério Buratti à folha de São Paulo, publicada em 12 de Abril de 2006;

Trecho referente à empresa Procomp:

Folha - Que tipo de assunto o sr. e Palocci discutiam na casa [mansão de Ribeirão Preto no lago sul de Brasília]?

Buratti - "Assuntos gerais, principalmente de Ribeirão Preto. Ele queria ouvir o que estava acontecendo. E a mim interessava, como representante da Leão Leão, verificar a possibilidade de participar de obras ou de projetos do governo, no que, infelizmente, nunca obtive êxito.

Folha - O sr. sabe que empresas tiveram sucesso nessa empreitada?

Buratti - Até o ponto que acompanhei o movimento da casa nenhuma empresa tinha tido êxito nos negócios com o governo federal. Tinha o Roberto Carlos Kurzweil, da REK. Tinha a Procomp, por meio do Ruy [Barquete], que utilizava a casa não para negócios da Procomp, mas como um ponto de apoio pessoal. Tinha os negócios do José Roberto Colnaghi [empresário em cujo jatinho Palocci pegou carona], que não tinham prosperado. Não era a intenção da casa ser um ponto de lobby, como dizem agora.

Folha - Qual era a intenção?

Buratti - Ser um ponto de apoio para empresários que buscavam, legitimamente, atividades comerciais em Brasília. Não se formou a casa para fazer atividades ilícitas e, até onde eu sei, e tenho a convicção de que sei muito sobre essa casa, não houve nenhum tipo de negócio ilegal, não houve festas. A casa foi um erro. O objetivo não foi atendido, só deu problema.


[2]- Entrevista com Rogério Buratti publicada no Estado de São Paulo em 12 de Abril de 2006

Trecho referente à empresa Procomp

"P: mas quem era o grupo?

R: Quem foi, quanto deu eu não sei. Naquela época eram as empresas vinculadas ao grupo do empresário Roberto Colnaghi. Teve a Rek, o Rui, irmão do Ralf, pela Procomp. Agora não tinha uma cotização definida. As pessoas pagavam de acordo com o uso."

[3]- http://www.cic.unb.br/~rezende/trabs/queda.htm

[4]- http://www.yubanet.com/artman/publish/article_28878.shtml,

[5]- http://ask.slashdot.org/article.pl ?sid=05/01/31/1457226&tid=172&tid=191&tid=4

[6]- http://www.ep.liu.se/exjobb/isy/2004/3557

[7]- Amorim, Paulo Henrique & Passos, M. H.:
"Plim Plim, a peleja de Brizola contra a fraude eleitoral"

[8]- http://www.rnp.br/cais/alertas/2005/cais-alr-28122005.html

[9]- Slashdot: "Quadrilha russa vende vírus de WMF no mercado negro por US$ 4000" http://it.slashdot.org/article.pl?sid=06/02/02/215210

[10]- http://www.eweek.com/article2/0,1895,1912416,00.asp

[11]- http://www.eweek.com/article2/0,1895,1911073,00.asp

[12]- Unisys Predicts Boom in Biometrics - Enterprise Security
http://www.newsfactor.com/story.xhtml?story_id=41398

[13]- Análise de um sistema eleitoral eletrônico
http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/ artigos.asp?cod=293ENO002

[14]- Reavaliação de um sistema eleitoral eletrônico
http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/ artigos.asp?cod=301ENO002

[15]- Eleição com ou sem auditoria?
http://www.comciencia.br/reportagens/2005/07/13.shtml

[16]- O segredo das eleições de 2002
http://www.ucho.info/fraude_urnas_02.htm

[17]- http://jus2.uol.com.br/doutrina/texto.asp?id=4373